domingo, 26 de fevereiro de 2012

A Anarquia é viável?

A Anarquia é viável?

"Se desejas testar o caráter de um homem, dê-lhe poder."
- Abraham Lincoln

"O Inferno são os outros."
- Jean-Paul Sartre

"Mas, se o bastante de nós sonhar...
Se mil de nós sonharmos...
...poderemos mudar o mundo.
Nós podemos sonhá-lo de novo!"
- Neil Gaiman, Um Sonho de Mil Gatos

É algo engraçado quando falo para as pessoas que sou anarquista. Elas me olham de um jeito estranho e invariavelmente vem a frase "Você não tem cara de anarquista!", que costuma vir acompanhada de alusões a depredações, roubos, saques, etc. E lá vou eu explicar que anarquia não é nada disso, isso se chama vandalismo, por mais que esses vândalos se digam anarquistas.

Sou tão anarquista que nunca li nenhum texto de nenhum autor clássico anarquista, por isso, se esperam que eu os cite aqui, sinto desapontá-los. Na verdade, não sinto não, estou apenas dizendo isso para ser educado. Mesmo algumas pessoas já tendo me dito que as minhas ideias são similares a de alguns destes autores, não tive a oportunidade, nem a real vontade de procurá-los.

Anarquia, simplesmeste significa "não governo", ou melhor dizendo, a ausência de um estado de poder, de uma autarquia superior que comanda nossos deveres e direitos perante a sociedade. Só que toda ausência precisa ser preenchida, e na anarquia o preenchimentos somos todos nós. Isso! Nós! Ou essa estranha entidade chamada de "sociedade".

Cabe a cada indivíduo participar diretamente da promoção do bem-estar da sociedade como um todo, por saber que ao fazer isso ele também está se beneficiando. Parece uma ideia um tanto utópica para você que está me lendo neste momento, eu imagino. E tambem imagino que neste momento você está pensando que existem pessoas que não se importam com os outros, que diante de tal estado irão usar da força e do poder para dominar os outros. Mas e você? Você se importa com os outros? O que você tem feito para ajudar os outros? Para tornar o mundo ao seu redor um lugar melhor? Agora, pense bem, quantas vezes você exerceu alguma forma de poder ou força para conseguir aquilo que quer, sem se preocupar com os outros? Então, de quem você está falando mesmo? Dos outros? Ou de você mesmo?

A verdadeira anarquia exige uma confiança no ser humano, e na sua capacidade de crescimento. Crescimento esse que não é para uma direção específica, mas um desenvolvimento de cada ser humano como ele é! E isso requer, além de confiança, um respeito a si mesmo e a diversidade desta figura estranha que chamamos coletivamente de "outro".

É muito mais fácil deixar que outros tomem o poder, que ditem as regras e julguem o certo e o errado. Que eles nos protejam do outro! Que eles nos protejam de nós mesmos. E é assim que são formados todos os governos, pela aquiescência e permissividade dos governados. E tal qual Poncio Pilatos, lavamos nossas mãos, chamando aqueles que permitimos que nos governassem de ladrões, corruptos, interesseiros, mas nada fazendo para mudar isso. Novamente nos eximimos da responsabilidade, outra característica necessária para uma verdadeira anarquia, e talvez a mais temida de todas.

Em resumo, para uma verdadeira anarquia, uma ausência de um estado soberano, é necessário que recuperemos a fé no ser humano, tanto este a quem chamamos de "eu", quanto aquele que chamamos de "outro". É verdade que nos últimos tempos, esta criatura não tem nos dado muitas provas de confiança, respeito, ou responsabilidade, mas é disso que se trata a fé, acreditar, mesmo diante de provas em contrário.

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