quinta-feira, 21 de junho de 2012

Conto - Carta da Rio+200 para a Rio+20


Meu avô contava que este deserto infindável um dia havia sido uma floresta. E não uma floresta qualquer, mas a maior floresta de todo o mundo.
Eu não sei se é verdade. Meu avô gostava de exagerar em suas histórias.  E eu adorava ouvi-lo contá-las.
Ele morreu alguns meses atrás.
Câncer!
Assim como todos os outros da minha tribo.
Eu sou o último.
Ele também dizia que o riacho de água barrenta que sempre saciou a sede de nossa tribo um dia foi um rio gigantesco. Tão largo e com tanta água que você não conseguia ver a outra margem.
Mais um de seus exageros, sem dúvida.
De qualquer forma, tudo o que restou foi esse deserto escaldante, onde o céu é constantemente azul, e quando há nuvens, isso não é motivo de alegrias, mas de preocupação, pois as tempestades que elas trazem são tão violentas tanto em enxurrada quanto em raios e trovões, que é preferível permanecer com o sol.
Hoje está um dia fresco. Apenas 50 graus celsius.
Segundo meu avô, o fim da floresta e do rio, as cidades afundadas pelo mar crescente (e meu avô adorava contar histórias sobre cidades afundadas, principalmente de uma que tinha o nome de rio), tudo enfim, foi por causa de um tal dinheiro. Que as pessoas se matavam por ele, e viviam para ele.
Como eu não sabia o que era, meu avô me mostrou algumas folhas coloridas que ele guardou consigo. “Para lembrar dos velhos tempos”, dizia.
Depois que ele morreu, eu resolvi provar uma delas para ver se o gosto era tão bom assim para valer isso tudo.
Era horrível!
Talvez a folha estivesse velha e passada, não sei. Apesar que eu tomei o cuidado de escolher uma bem verdinha.
Ou talvez meus antepassados fossem simplesmente malucos.
Pensei em jogar todas as folhas fora, mas acabei guardando. Elas me lembram do meu avô e são bonitas, com todas as suas cores e símbolos. Quem sabe não era por isso que meus ancestrais faziam tudo por elas?
Será que não percebiam o que faziam com a mãe terra por umas folhas coloridas de gosto ruim?
Meu avô dizia que não.
Que eles chegaram a dizer que não era culpa deles, e que era capaz de seus descendentes até agradecerem pelo aumento do calor.
Eu sou seu descendente. E agradecimento está muito longe do que eu quero dizer a vocês.
Mas ofender vocês agora também não vai adiantar nada.
Eu não sei se alguma coisa ainda vai adiantar.
Mas eu estou tomado pela doença e pela solidão. Assim como aconteceu com o meu avô e com o resto da minha tribo, eu também estou morrendo. E já faz um mês que eu não vejo outra viva alma neste deserto.
Se a mãe terra, em sua infinita sabedoria, me conceder esta última dádiva, e esta mensagem puder chegar até vocês, meus ancestrais, eu trago essa mensagem:
Façam alguma coisa!
Por menor que possa parecer, façam alguma coisa para impedir que este mundo, este deserto sem fim, venha a existir.
Se vocês conseguirem, aí sim, seus descendentes terão algo a lhes agradecer.

Tomé, Deserto Amazônico, 20 de junho de 2192

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