domingo, 22 de julho de 2012

Resenha - 2013 Ano Um - Vários Autores


E se o calendário maia, as previsões de Nostradamus, as teorias mais catastróficas estiverem todas corretas? E se o fim estiver próximo? E depois?

Neste livro, quinze autores expõem sua visão do fim do mundo e como sobreviveremos à ele. Não são histórias sobre o fim, mas sobre novos começos.

Mesmo sendo suspeito, como um dos autores, achei a maioria dos contos indo do bom ao excelente, com apenas um conto caindo na categoria "não gostei".

O livro abre com o prefácio de César Silva que apresenta muito bem a proposta do livro, demonstrando que se trata não de um livro sobre o desespero do fim, mas sobre a esperança de novos começos.

O primeiro conto, Terra Brasilis, traz a versão mais original de "fim do mundo" do livro inteiro. Gerson Lodi-Ribeiro nos conduz por uma expedição na selva que se tornou o mundo de forma primorosa, deixando com a impressão de que o conto é, na verdade, o início de uma história maior (bem adequado com a premissa da antologia). Única falha é não ter traduções para os termos militares e em outra língua, o que dificultou um pouco o fluir da história.

Logo depois somos lançados em uma história de ação em A Rapineira de A.Z. Cordenonsi. O autor sabe como descrever cenas de ação de forma que a sensação é de estarmos assistindo um filme e não lendo um livro. Destaque para o questionamento quanto ao valores em um mundo onde as facilidades modernas se foram.

Fiquei um pouco incomodado com Antigos, de Duda Falcão, devido as semelhanças com meu próprio conto, mas a temática dele é bem diferente, apesar dos elementos em comum. Gostei do foco na continuidade da humanidade como conceito mais do que como raça.

A Imagem do Homem, de Carlos Relva, foi um dos contos que mais gostei. Com uma clara referência à "Matrix" o autor constrói um questionamento interessante sobre o que é ser humano e sobre o nosso sistema social. Difícil falar mais alguma coisa sem entregar a história.

Em contrapartida, O Último Homem, de Ademir Pascale, foi o conto que menos gostei, aliás foi o único conto de que não gostei em toda a antologia. A história simplesmente não se encaixa, começa várias vertentes sem terminar nenhuma. Única coisa que eu gostei foi do final.

Projeto Olimpo de Paulo Fodra é bem interessante ao manter uma história o tempo todo em figura e no final mostrar uma outra história por trás desta. Só senti falta de mais passagens com as interações entre os "deuses" para explorar melhor suas relações, o que tornaria o final ainda mais surpreendente do que já é. 

Em Para Viver na Barriga do Monstro, Roberto de Souza Causo nos tráz um olhar sobre o impacto do fim do mundo fora das grandes cidades, fazendo um contraste entre o olhar moderno do fim como algo terrível e o olhar antigo do fim como parte de um ciclo. 

O conto seguinte, Os Filhos do Dragão, é muito bom, fantástico e escrito por um autor maravilhoso que vai fazer mais sucesso que o Paulo Coelho. Brincadeira! Não vou avaliar o meu próprio conto, deixo isso para vocês. Quem quiser ler uma degustação veja aqui.

Reino, de Josué Oliveira, traz novamente a temática da sobrevivência com um toque de crítica social. Só não gostei do final por considerá-lo um pouco forçado, já que o elemento que conduziu ao final me causou estranheza por ser algo que não encaixa com a postura do protagonista ao longo do resto da história.

Outro conto com um fim do mundo diferente é O Dia em que as Nuvens Caíram, de Adriano Siqueira, ou seria melhor dizer que é uma forma diferente de apresentar um tema comum, o apocalipse zumbi. só senti falta de um pouco mais de amarração entre as cenas, o conto é um pouco rápido demais, pulando de uma cena para a outra de forma tão vertiginosa que precisei reler alguns trechos para entender "onde" estava. Fora isso, o conto é muito bom e também causa a sensação de ser o início de uma história maior.

Daniel Tréz fez um conto bem polêmico em Irmãos do Espírito, onde o líder de uma seita religiosa que comanda a nova sociedade humana faz um desabafo em seu leito de morte. A história é basicamente uma forte crítica social ao pensamento dogmático e seu final fecha com chave de ouro a temática.

Já tinha ouvido falar de Ana Lúcia Merege e seu romance O Castelo das Águias, e foi com certa expectativa que li o seu conto Deixando o Condado. Expectativas mais do que correspondidas, superadas até! Sendo um dos contos que mais gostei da antologia. Sua visão das relações humanas em uma situação de sobrevivência extrema é uma excelente reflexão. Mais um conto que me deixou curioso quanto ao que acontece depois, fica a proposta para a autora de um dia escrever uma continuação, talvez um ano depois com Octavio e Laura retornando ao condado.

Outro conto que explora as relações humanas ao extremo é Sempre o Sol de João Rogacianomas aqui não vemos a tensão inter-psíquica do conto anterior, mas uma tensão intra-psíquica onde o protagonista divaga sobre a sua própria transformação diante das mudanças do mundo. Adorei a forma em que o "fim do mundo" se apresenta no final da história.

Curiosamente O Retorno de Marcelo Bighetti é o único conto da antologia a colher inspiração diretamente do mito sobre o calendário maia, apresentando duas histórias paralelas, uma no presente e outra no passado, que por fim se encontram. Não sei muito bem o que opinar sobre essa história, não é que eu não tenha gostado, eu gostei, mas fiquei com a impressão de que faltou "algo", e eu não sei bem o que. Ou talvez eu esparasse um final diferente do que foi apresentado, apenas isso.

Mariana, de Tibor Moricz, fecha a antologia com uma história de recomeços diante das destruições, mostrando o conceito que foi o foco do projeto como um todo, a resiliência do ser humano, nossa capacidade de nos reconstruirmos diante dos abalos, criando novos sentidos para o mundo ao nosso redor, mesmo quando esse mundo desmorona.

O Pósfácio dos organizadores Alícia Azevedo e Daniel Borba fecha o livro discorrendo sobre a temática do homem diante da finitude, novamente trazendo a tona a questão central da antologia "O que acontece depois do fim?"

O livro é primoroso, tanto em seus autores quanto em sua apresentação, e eu espero ansioso por novas chances de trabalhar com a editora ornitorrinco e de compartilhar espaço novamente com muitos companheiros de caneta que participaram deste projeto comigo.

Contos que mais gostei: Terra Brasilis, Deixando o Condado e A Imagem do Homem.

5 comentários:

Ana disse...

Muito obrigada pela apreciação, Sandro! Será um prazer conhecê-lo no sábado.

Marcelo Bighetti disse...

Obrigado Sandro pela sua resenha.

João Rogaciano disse...

Oi Sandro, muito obrigado pelas suas palavras sobre o meu conto. Gostei da sua apreciação.
Ainda não me foi possível ler o livro, pois só hoje é que chegaram aos correios os meus exemplares de autor e só na próxima segunda feira é que terei os livros.
Um abraço,
João Rogaciano

Gerson Ribeiro disse...

Obrigado pela resenha generosa, Sandro!

Carlos Relva disse...

Obrigado pela resenha, Sandro! Já a divulguei aos quatro quantos! Aliás, seu conto também me agradou muito. E me diverti ao imaginar que o seu texto e o do Duda Falcão se passavam no mesmo universo. Isso, claro, não desmerece o trabalho de nenhum dos dois. Apenas mostra como escritores criativos podem imaginar tramas tão dispares, apesar dos temas em comum. Um grande abraço e parabéns!