quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Acerca da Depressão

"Eu me senti esquisito. Como se eu nunca mais fosse sentir alegria na minha vida."
- J.K. Rowling, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban.

A descrição acima fala do ataque das criaturas fantásticas conhecidas como dementadores, mas se aplica perfeitamente a descrição de uma pessoa acometida de depressão. Não por acaso, Rowling declarou ter se embasado em sua própria experiência com uma depressão que tivera anos atra´s para criar estas criaturas.

Mas o que é a depressão?

Não vou aqui fazer uma descrição das alterações bioquímicas relacionadas a esta condição. como psicólogo e gestalt-terapeuta me interessa muito mais a forma como a depressão é experienciada por aqueles acometido por ela.

A depressão ocorre quando sentimentos ficam guardados "dentro" de nós sem que se lide com eles. Isto acontece principalmente com aqueles sentimentos que consideramos ruins ou negativos, tais como: tristeza, medo, pesar, luto, melancolia, raiva, ódio, etc.

As pessoas que se negam a entrar em contato com estas emoções tentam reprimi-las com atividades que podem se tornar compulsivas, o uso de drogas (lícitas ou ilícitas), alimentação compulsiva, vícios em adrenalina, sexo, jogo, ou até trabalho.

Tudo realizado como uma forma de fuga de nós mesmos em consonância com a ideia neurótica de que podemos escolher como nos sentimos.

Mas não podemos.

A única coisa que não podemos escolher em nossas vidas é exatamente como nos sentimos em relação às situações e acontecimentos que vivemos.

Os sentimentos reprimidos continuam conosco, e da mesma forma que uma carne esquecida na geladeira, apodrecem em nosso íntimo e como um câncer esta podridão se espalha, devorando cada sentimento e pensamento que temos até que tudo o que resta é um sentimento de vazio e desespero, podendo levar a doenças psicossomáticas, em casos extremos, quando este sofrimento se torna absolutamente insuportável, a fuga final representada pelo suicídio.

A família e os amigos quando não acham que é "frescura", tentam ajudar com palavras de incentivo dizendo coisas que temos de fazer, que não podemos ficar desse jeito (como se precisássemos de autorização para sentir algo), o que acaba piorando ainda mais o estado da pessoa deprimida.

Não que os amigos e familiares façam isso por mal. Na verdade eles o fazem com a melhor das intenções. No raciocínio deles, tirar a cabeça dos problemas, ou seja, reprimir ainda mais os sentimentos negativos, é a solução.

As medicações para depressão podem ajudar, mas apenas quando enfim encaramos e nos apropriamos das emoções que encarceramos ao longo dos anos é que começamos a verdadeira jornada em direção a saúde.

"Você então está dizendo que para me livrar da depressão eu preciso ficar triste?"

Por mais paradoxal que isso possa parecer, é exatamente isso.

Quando nos apropriamos destes sentimentos reprimidos, os vivenciamos e fazemos alguma coisa com eles, deixamos escoar a energia que os compõem e eles se vão.

A proposta do processo psicoterapêutico, ao menos sob uma abordagem da gestalt-terapia, é a de que o paciente possa vivenciar estas emoções em um ambiente seguro e acolhedor, para a partir daí nos abrimos a outras possibilidades de sentir e viver no mundo.

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