domingo, 24 de julho de 2016

Os Outros

O ser humano é uma raça gregária. Sentimos, enquanto espécie, uma necessidade de nos relacionarmos, de compartilharmos experiências, expectativas e histórias.

Contraditoriamente, algumas vezes precisamos da solidão, para nos reconectarmos conosco e para processar o contato que vivemos com os outros. Há um limite para isso, entretanto, e a solidão excessiva pode ser massacrante. Não a toa é uma das formas de punição mais antiga e dolorosa da história da humanidade é justamente a solitária.

Precisamos da relação com o outro. Ele alimenta nossas almas como a comida e a bebida o fazem aos nossos corpos.

Algumas vezes, e curiosamente isso tem se tornado cada vez mais forte nesses tempos de comunicações instantâneas e redes sociais, buscamos a relação com um outro que seja como nós. Que tenha os mesmos gostos, as mesmas ideias, a mesma visão de mundo (e dos outros outros), até os mesmos defeitos. Fazemos isso em busca de uma validação de quem somos, ou de quem acreditamos ser. Não há nada de errado nisso.

O problema é quando restringimos nossas relações à outros que são o mesmo. E nos fechamos em nossas comunidades, grupos, congregações, excluindo  tudo e todos que podem ameaçar-nos. Vivendo relações que são apenas vivências narcísicas entre reflexos de espelhos infinitos.

Por que o outro, não o outro mesmo, mas o outro outro, nos ameaça tanto?

É porque este outro, o que difere de nós, reverbera no outro que existe em nós. Mostrando-nos que poderíamos ser diferente do que somos, ou do que pensamos que somos. E, nessas relação, vemos que poderíamos ser outros.

E são esses outros a quem realmente tememos.


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