sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

De Cara com um Assassino

Essa história já deve ter uns quinze ou vinte anos.

Precisávamos fazer alguns reparos em uns móveis e recebemos a indicação de alguns vizinhos de uma pequena loja/oficina de móveis que ficava em uma rua próxima.

Ligamos para lá e o dono do local veio até nossa casa para checar os reparos necessários. Ele mesmo faria os reparos. Era um pequeno negócio da zona norte do Rio, do tipo que o “dono” é muitas vezes o único empregado. Nesse caso ele tinha ainda um aprendiz que cuidava da loja quando se ausentava para ir na casa de um cliente.

Ele explicou que teria de levar alguns móveis ou partes dos móveis para a oficina dele porque lá ele tinha certas ferramentas que eram mais complicadas de ficar carregando de um lado para o outro.

Na verdade, esse era apenas um dos motivos.

Ele trabalhava muito bem. Era calmo, concentrado e brincalhão.

Não lembro exatamente o porquê dele ter nos contado.

Acho que foi porque ele não poderia entregar os móveis no dia combinado. Ou porque ele não poderia ficar muito tarde terminando de montar os móveis em nossa casa. De qualquer forma, lembro que o motivo foi para explicar o porquê ele não poderia estar na rua de noite.

Mas o ponto é que ele nos contou. Ele era um ex-presidiário que estava em liberdade condicional.

Havia matado a esposa e o amante na cama e logo depois se entregou.

Por isso, ficara seis ou sete anos (não lembro ao certo quantos) “no inferno”, como ele mesmo dizia.

Ele não se justificava. Tinha consciência que havia feito algo errado e por isso se entregou.

Seu maior arrependimento, dizia, foi que sua filha cresceu sem pai e sem mãe pelo erro dele.

Toda vez que alguém fala a frase “bandido bom é bandido morto” eu lembro desse cara.

É possível que quem esteja lendo isso ache pouco os anos que ele passou na cadeia. Talvez seja. Se for, quantos seriam suficientes?

Ele ainda fez outros concertos em nossa casa, e para alguns vizinhos, indicado por nós. Era um excelente trabalhador.

Anos depois a loja fechou. Estava esses dias tentando lembrar o que aconteceu. Pelo que pude puxar da memória a família da mãe da filha dele (com quem ele tinha se reaproximado) decidiu sair do Rio de Janeiro e ele foi junto para manter contato com a filha.

Nenhum comentário: