sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Tirania da Felicidade



Anos atrás eu jogava um RPG (o jogo de interpretação de papéis, não a técnica de reeducação postural, que eu também fazia, mas não é relevante para esse texto) chamado Paranóia. Este jogo apresentava um cenário onde os últimos sobreviventes da raça humaana vivem em um complexo gigantesco dominado por um computador tirânico e megalomaníaco.

A primeira lei do Complexo Alfa era “Felicidade é obirgatória” e esta frase podia ser encontrada espalhada por todo o complexo, normalmente acompanhada da pergunta: “Você está feliz, cidadão?” Como a felicidade era obrigatória, qualquer resposta a esta pergunta que fosse diferente de um entusiasmado e sorridente “SIM” era considerado traição e punido com a morte (ou desintegração).

Então vejamos:

  • A Humanidade vivendo em complexos fechados sem contato com o mundo exterior.
  • Computadores mandando em nossas vidas.
  • A Felicidade é Obrigatória.

Não sei vocês, mas para mim parece que a realidade resolveu copiar a ficção, não?

De uma certa forma, vivemos todos em um mundo muito similar ao de Paranóia. Temos uma preocupação em estarmos felizes, ou ao menos de parecer que estamos felizes, o tempo todo. Precisamos mostrar essa nossa essa nossa “felicidade” de forma constante nas redes sociais no trabalho, nos encontros de família ou com amigos.

Basta assistir a televisão por alguns minutos para vermos a cobrança para não reduzirmos o ritmo no comercial de analgésico, a importância de deixar a tristeza de lado porque “a vida é muito curta” nos diz o apresentador do programa de auditório, e, se tudo o mais falhar, exoste a bebida que te faz voar ou te enche com a alegria do verão.

É como se não tivéssemos a permissão de sentir qualquer coisa além dessa tal “felicidade” que nos vendem. E, sim, vendem, porque essa “felicidade” tem um preço. O preço da viagem paradisíaca, do carro que você não pode deixar de ter, da maquiagem que fará você ser bonita, ou do remédio que fará sumir a dor e sofrimento. E ainda devemos nos sentir gratos por tudo o que temos, e comprar nosso lugar no céu (que também tem seu preço), nos lembra o pastor-apresentador no culto/programa de auditório do outro canal, afinal não basta dar o cartão tem de dar a senha para receber o milagre.

Não fique triste, não chore, não reclame, não sofra. Nos é dito o tempo todo. Apenas, seja feliz!

Você está feliz, cidadão?

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