quarta-feira, 22 de maio de 2019

Autismo 02 — A Imagem do Autismo

Autismo 02 — A Imagem do Autismo

Como contei em minha postagem anterior sobre o assunto, até 2015 a imagem que eu tinha do autismo estava muito atrelada ao filme “Rain Man”. Vejo que hoje, em plena virada da terceira década do século XXI, muitas pessoas possuem essa mesma imagem sobre esse transtorno, mesmo que não tenham visto o referido filme (e até pessoas da área psi que deveriam saber um pouco mais sobre o assunto).
Para quem nunca viu o filme, nele Dustin Hoffman brilhantemente interpreta um paciente de uma instituição psiquiátrica diagnosticado com a síndrome de Kanner e a síndrome de Savant (sei que esses nomes podem não significar muito para algumas pessoas nesse momento, mas voltarei a eles em breve) que é sequestrado por seu irmão mais novo após a morte dos pais a fim de por as mãos em parte da herança.
A partir daí fixou-se essa imagem da pessoa autista como sendo alguém que repete a mesma coisa sem parar, fica se balançando, tem um horário rígido e é um gênio que faz cálculos gigantescos de cabeça.
Não me levem a mal, o filme é ótimo e com certeza fez muitas pessoas conhecerem ou se interessarem em conhecer pelo menos um vislumbre do autismo no final da década de 1980 (o filme é de 1988) e início dos anos 1990. Eu, inclusive.
Mas nos últimos trinta anos muita coisa foi descoberta sobre o autismo e a imagem que os profissionais que pesquisam sobre o assunto têm a respeito mudou e se ampliou. É nesse ponto que o filme causa um certo desserviço.
Voltando aos termos que citei ali em cima, comecemos pela síndrome de Kanner, também chamada antigamente de Autismo Típico ou Autismo Clássico. Essa síndrome recebe esse nome em homenagem ao pesquisador Leo Kanner que publicou um dos primeiros artigos sobre autismo em 1943 e descreve pessoas que ficam voltadas para si (daí o termo autismo, “em si mesmo”), com dificuldades severas de comunicação, interação social e que realizam atos repetitivos aparentemente sem sentido de uma forma bem próxima da imagem trazida às telas por Dustin Hoffman.
E há muitos autistas que são como o Rain Man. Mas não todos. E esse é o ponto.
Hoje conceitua-se o autismo como um espectro. Se você já minimamente leu alguma coisa sobre autismo ou apenas deu uma goggleada (isso é um verbo?) sobre o assunto deve ter esbarrado nesse termo. Mas o que ele significa?
O conceito de espectro indica que o autismo pode ter uma larga variedade de formas diferentes de pessoa para pessoa que possui o transtorno.
Mantém-se a ideia de que o autismo é identificado por alterações nas capacidades de interação social, comunicação e a fixação em certos assuntos e comportamentos (as chamadas estereotipias). Essas três características formam a chamada Tríade Autista que eu pretendo falar a respeito em outra futura postagem. Adiciona-se a isso a compreensão de que as pessoas podem variar e apresentar essas características de formas diferentes.
Indo desde a síndrome de Kanner, o “autismo típico”, que se assemelha ao Rain Man, até a síndrome de Asperger, chamado de “autismo de alto desempenho”, que é mais difícil de ser identificado por suas características serem mais sutis (mas não menos difíceis para a pessoa portadora dessa síndrome), como a personagem Benedita da novela brasileira Malhação-Viva a Diferença, belamente interpretada por Daphne Bozaski. Entre essas passamos por várias outras síndromes como a supracitada de Savant, de Heller, etc até o transtorno global não-identificado que é uma outra forma de dizer que a vida, como sempre, escapa de nossas definições e que não se encaixa em síndromes já conhecidas.
Ou seja, é preciso atualizar a imagem que temos do autismo. Existem muitas formas de pessoas autistas, até porque existem muitas formas de pessoas.

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