quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Por que nosso futuro depende de bibliotecas, leituras e sonhar acordado.

Este post é a tradução de uma matéria que saiu no jornal inglês “The Guardian” onde o meu autor favorito, Neil Gaiman, faz algumas reflexões sobre bibliotecas, a importância da leitura e da imaginação para o futuro da humanidade.





Neil Gaiman: Porque nosso futuro depende de bibliotecas, leitura, e sonhar acordado.
Uma palestra explicando porque usar nossa imaginação, e prover que os outros usem a deles, é uma obrigação para todos os cidadãos.


É importante para as pessoas dizerem de que lados eles estão e porque, e se eles podem ser tendenciosos. Algo como uma declaração de interesses dos membros. Então, eu estarei dizendo para vocês que bibliotecas são importantes. Eu irei sugerir que ler ficção, que ler por prazer, é uma das coisas mais importantes que alguém pode fazer. Eu irei fazer um apelo exaltado para as pessoas entenderem o que bibliotecas e bibliotecários são,  e para preservar ambos.


E eu sou tendencioso, obviamente e enormemente: Eu sou um autor, frequentemente um autor de ficção. Eu escrevo para crianças e para adultos. Por cerca de 30 anos eu tenho ganhado a vida através das minhas palavras, sobretudo inventando coisas e as escrevendo. É obviamente do meu interesse que as pessoas leiam, que elas leiam ficção, que bibliotecas e bibliotecários existam e ajudem a alimentar um amor pela leitura e por lugares onde a leitura pode acontecer.


Então eu sou tendencioso por ser um escritor. Mas eu sou muito, muito mais tendencioso como um leitor. E eu sou ainda mais tendencioso como um cidadão britânico.


E eu estou aqui dando essa palestra esta noite, sob os auspícios da Reading Agency (Agência de Leitura): uma instituição de caridade cuja missão é dar a todos uma chance igualitária na vida ajudando as pessoas a se tornarem leitores confiantes e entusiasmados. Que apoia programas de alfabetização, e bibliotecas e indivíduos e desenfreadamente encoraja o ato de ler. Porque, eles nos dizem, tudo muda quando nós lemos.


E é sobre essa mudança, e sobre o ato de ler que eu estou aqui para falar a respeito esta noite. Eu quero falar sobre o que ler faz. Que bem pode fazer.


Eu estive uma vez em New York, e assisti a uma palestra sobre a construção de prisões privadas - uma enorme indústria em crescimento na América. A indústria das prisões precisa planejar seu futuro crescimento - quantas celas eles irão precisar? Quantos prisioneiros irão existir, 15 anos no futuro? E eles descobriram que eles podiam predizer isso muito facilmente, usando um algorítimo muito simples, baseado em perguntar qual a percentagem de crianças com 10 e 11 anos que não podiam ler. E certamente não podiam ler por prazer.


Não é um para um: você não pode dizer que uma sociedade leitora não tem criminalidade. Mas existem muitas correlações reais.


E eu acho que algumas destas correlações, as mais simples, vem de alguma coisa muito simples. Pessoas alfabetizadas leem ficção.


Ficção tem duas utilidades. Em primeiro lugar, é uma porta de entrada para o vício da leitura. O impulso para saber o que acontece a seguir, para querer virar a página, a necessidade para continuar, mesmo se for difícil, porque alguém está em apuros e você tem que saber como tudo isso vai terminar… este é um impulso muito real. E força você a aprender novas palavras, a pensar novos pensamentos, a continuar. Para descobrir que ler per se é prazeiroso. Uma vez que você aprender isso, você está na estrada para ler qualquer coisa. E ler é primoridal. Houveram barulhos feitos brevemente, uns poucos anos atrás, sobre a ideia que nós estamos vivendo emum mundo pós-literado, em que a habilidade de fazer sentido através de palavras escritas seria de alguma forma redundante, mas estes dias se foram: palavras são mais importantes do que elas jamais foram: nós navegamos no mundo com palavras, e como o mundo desliza para internet, nós precisamos seguí-lo, para comunicar e para compreender o que nós estamos lendo. Pessoas que não podem entender umas às outras não podem trocar ideias, não podem comunicar, e programas de tradução tem limites.


A forma mais simples para certificar-se que nós criaremos crianças alfabetizadas é ensiná-las a ler, e mostrar a elas que ler é uma atividade prazeirosa. E isso significa, na sua forma mais simples, encontrar livros que elas gostem, dando a elas acesso a estes livros, e deixando-as lê-los.


Eu não acho que existe tal coisa como um livro ruim para crianças. De vez em quando vira moda entre alguns adultos apontar um subtipo de livros infantis, um gênero, talvez, ou um autor, e declará-los livros ruins, livros que crianças devem ser impedidas de ler. Eu vi isso acontecer de novo e de novo; Enid Blyton foi declarado um autor ruim, assim como foi RL Stine, assim como foram dúzias de outros. Quadrinhos tem sido condenados como incentivando o analfabetismo.


É tolice. É pretensioso e é bobabem. Não existem autores ruins para crianças, que crianças gostam e querem ler e procuram, porque cada criança é diferente. Elas podem achar as histórias que elas precisam, e elas se colocam nas histórias. Uma ideia gasta ou banal não é gasta e banal para elas. Esta é a primeira vez que a criança a encontra. Não desencorage as crianças a ler porque você acha que eles estão lendo a coisa errada. Ficção que você não gosta é uma rota para outros livros que você pode preferir. E nem todo mundo tem o mesmo gosto que você.


Adultos bem intencionados podem facilmente destruir o amor pela leitura de uma criança: impedindo-os de ler o que eles gostam, ou dando a eles livros valiosos-mas-chatos que você gostaria, o equivalente no século 21 a forma vitoriana de “aprimorar” a literatura. Você terminar com uma geração convencida que ler é chato e pior, é desagradável.


Nós precisamos que nossas crianças entrem na escada da leitura: qualquer coisa  que eles gostem de ler os move para cima, degrau por degrau, dentro do alfabetismo. (Também, não faça o que este autor fez quando sua filha de 11 anos estava em RL Stine, que é arrumar um exemplar de Carrie de Stephen King, dizendo se você gostou destes você irá amar este! Holly não leu nada além de histórias seguras de colonos em pradarias pelo resto dos seus anos adolescentes, e ainda me dá um olhar penetrante quando o nome de Stephen King é mencionado.)


E a segunda coisa que ficção faz é construir empatia. Quando você assite TV ou vê um filme, você está olhando para coisas acontecendo para outras pessoas. Ficção em prosa é alguma coisa que você construiu a partir de 26 letras e um punhado de marcas de pontuação, e você, e você sozinho, usando a sua imaginação, criou um mundo e pessoas e olhou através de outros olhos. Você sente coisas, visita lugares e mundos que você nunca conheceria de outra forma. Você aprende que todo mundo lá fora é um eu também. Você se torna outra pessoa, e quando você retorna ao seu próprio mundo, você estará levemente mudado.


Empatia é um instrumento para construir pessoas em grupos, permite-nos funcionar como mais do que indivíduos auto-obsecados.


Você também está descobrindo uma coisa vitalmente importante para fazer o seu caminho no mundo conforme você lê. E é isto:


O mundo não tem que ser desta forma. As coisas podem ser diferentes.


Eu estava na China em 2007, na primeira convenção de fantasia e ficção científica aprovada pelo partido da história chinesa. E em um certo momento eu fui até o oficial comandante e perguntei a ele por quê? FC havia sido desaprovada por um longo tempo. O que tinha mudado?


É simples, ele me disse. Os chineses eram brilhantes em fazer coisas se outras pessoas dessem a eles os planos. Mas eles não inovavam e eles não inventavam. Eles não imaginavam. Então eles mandaram uma delegação aos EUA, para a Apple, para a Microsoft, para Google, eles perguntaram as pessoas ali que estavam inventando o futuro sobre elas mesmas. E eles descobriram que todos eles leram ficção científica quando eles eram meninos ou meninas.


Ficção pode mostrar a você um mundo diferente. Pode levar você a um lugar onde você nunca esteve. Uma vez que você tenha visitado outros mundos, como estes que comeram uma fruta das fadas, você nunca poderá ficar totalmente satisfeito com o mundo em que você cresceu. Descontentamento é uma coisa boa: pessoas descontentes podem modificar e aprimorar seus mundos, deixá-los melhor, deixá-los diferentes.


E enquanto nós estamos neste assunto, eu gostaria de dizer umas poucas palavras sobre escapismo. Eu ouço o termo cogitado como se fosse uma coisa ruim. Como se ficção “escapista” fosse um opióide barato usado  pelos confusos, os tolos e alienados, e a única ficção que tem valor, para adultos ou para crianças, é ficção mimética, espelhando o pior do mundo em que o leitor se encontra.


Se você estivesse aprisionado em uma situação impossível, em um lugar desagradável, com pessoas que te querem mal, e alguém oferecesse a você uma escapada temporária, por que você não a aceitaria? E ficção escapista é justamente isso: ficção que abre uma porta, mostra a luz do sol lá fora, dá a você um lugar para ir onde você está no controle, com pessoas com quem você quer estar (e livros são lugares reais, não se engane sobre isso); e mais importante, durante a sua escapada, livros podem também dar a você conhecimento sobre o mundo e seu predicamento, dá a você armas, dá a você armadura: coisas reais que você pode levar de volta para a sua prisão. Habilidades e conhecimentos e instrumentos que você pode usar para escapar de verdade.


Como JRR Tolkien nos lembrou, as únicas pessoas que se colocam contra um escape são os carcereiros.


Outra forma de destruir o amor pela leitura de uma criança, é ter certeza de que não existem livros de qualquer tipo ao redor. E dar a eles nenhum lugar para ler estes livros. Eu fui sortudo. Eu tinha uma excelente bibiloteca local onde eu cresci. Eu tinha o tipo de pais que podiam ser persuadidos a me deixar na biblioteca no seu caminho para o trabalho nas férias de verão, e o tipo de bibliotecários que não ligavam para um garoto pequeno e desacompanhado indo para a seção infantil toda a manhã e lidando com o catálogo de cartões, procurando por livros com fantasmas ou magia ou foguetes neles, procurando por vampiros ou detetives ou bruxas ou maravilhas. E quando eu terminei de ler a seção infantil eu comecei com os livros adultos.


Eles eram bons bibliotecários. Eles gostavam de livros e eles gostavam que os livros fossem lidos. Eles me ensinaram como encomendar livros de outras bibliotecas em empréstimos inter-bibliotecas. Eles não foram esnobes sobre qualquer coisa que eu lia. Eles apenas pareciam gostar deste garotinho de olhos arregalados que amava ler, e falavam comigo sobre os livros que eu estava lendo, eles encontravam outro livro em uma série, eles me ajudavam. Eles me tratavam como outro leitor - nada menos ou mais - o que significava que eles me tratavam com respeito. Eu não estava acostumado a ser tratado com respeito quando eu tinha oito anos.


Mas bibliotecas são sobre liberdade. Liberdade para ler, liberdade de ideias, liberdade de comunicação. Elas são sobre educação (que não é um processo que termina no dia que nós deixamos a escola ou a faculdade), sobre entretenimento, sobre fazer lugares seguros e sobre acesso a informação.


Eu me preocupo que no século 21 as pessoas confundam o que as bibliotecas são e qual o propósito delas. Se você percebe uma biblioteca como uma estante de livros, isso pode parecer antiquado ou desatualizado em um mundo em que a maioria, mas não todos, os livros impressos existem digitalmente. Mas isso é perder o ponto fundamental.


Eu acho que tem a ver com a natureza da informação. Informação tem valor, e a informação correta tem um valor enorme. Por toda a história da humanidade, nós vivemos em um tempo de escassez de informação, e ter a informação necessária sempre foi importante, e sempre valeu alguma coisa: quando plantar sementes, onde achar coisas, mapas e histórias - elas sempre foram boas para uma refeição e companhia. Informação era uma coisa valiosa, e estes que a tinham ou podiam obtê-la podiam cobrar por este serviço.


Nos últimos anos, nós nos movemos de uma economia de escassez de informação para uma impulsionada por uma abundância de informação. De acordo com Eric Schmidt da Google, atualmente a  cada dois dias a raça humana cria tanta informação quanto ela criou da aurora da civilização até 2003. Isso é cerca de cinco exobytes de dados por dia, para estes que estão contando. O desafio se torna, não encontrar aquela escassa planta crescendo no deserto, mas achar uma planta específica crescendo em uma selva. Nós precisaremos de ajuda para navegar naquela informação para achar a coisa que nós realmente precisamos.


Bibliotecas são lugares onde as pessoas vão pela informação. Livros são apenas a ponta do iceberg da informação: eles estão lá, e bibliotecas podem prover você gratuitamente e legalmente com livros. Mais crianças pegam livros emprestados de bibliotecas que nunca antes - livros de todos os tipos: em papel, digital e audio. Mas bibliotecas também são, por exemplo, lugares que pessoas, que podem não ter computadores, que podem não ter conexão com a internet podem ficar online sem pagar nada: imensamente importante quando o caminho para descobrir sobre empregos, se candidatar a empretos ou benefícios estão migrando crescentemente para exclusivamente online. Bibliotecários podem ajudar estas pessoas a navegar neste mundo.


Eu não acredito que todos os livros irão ou devem migrar para telas: como Douglas Adams uma vez me dizz, mais de 20 anos antes do Kindle aparecer, um livro físico é como um tubarão. Tubarões são antigos: existiam tubarões nos oceanos antes dos dinossauros. E a razão de ainda existirem tubarões por aí é que tubarões são os melhores em serem tubarões do que qualquer outra coisa. Livros físicos são resistentes, difíceis de destruir, resistentes a banho, operam com luz solar, caem bem na sua mão: eles são bons em serem livros, e sempre existirá um lugar para eles. Eles pertencem as bibliotecas, assim como bibliotecas já se tornaram lugares onde você pode ter acesso a ebooks, audiolivros, DVDs e conteúdo da internet.


Uma biblioteca é um lugar que é um depósito de informação e dá a cada cidadão igual acessoa a ela. Isso inclui informação de saúde. E informação de saúde mental. É um espaço de comunidade. É um lugar seguro, um santuário do mundo. É um lugar com bibliotecários nele. Como as bibliotecas do futuro serão é uma coisa que nós devíamos imaginar agora.


Alfabetismo é mais importante do que nunca foi, neste mundo de texto e email, um mundo de informação escrita. Nós precisamos ler e escrever, nós precisamos de cidadãos globais que podem ler confortavelmente, compreender o que eles estão lendo, entender nuances, e se fazer entendidos.


Bibliotecas são realmente portais para o futuro. Então é triste que, ao redor do mundo, nós observemos as autoridades locais aproveitando a oportunidade para fechar bilbiotecas como uma forma fácil de poupar dinheiro, sem perceber que eles estão roubando do futuro para pagar pelo hoje. Eles estão fechando portais que deveriam ser abertos.


Se acordo com um estudo recente da Organização para Desenvolvimento e Cooperação Econômica (Organisation for Economic Cooperation and Development), Inglaterra é o “único país onde o grupo de idade mais velho tem maior proficiência tanto em linguagem quanto com números que o grupo mais jovem, após outros fatores, tais como gênero, antecedentes sócio-econômicos e tipo de ocupações são levados em consideração”.


Ou para colocar de outra forma, nossos filhos e nossos netos são menos alfabetizados e numerados do que nós somos. Eles são menos aptos para navegar no mundo, para entende-lo para resolver problemas. Eles podem ser mais facilmente enganados e desencaminhados, serão menos aptos a mudar o mundo em que eles se encontram, serão menos empregáveis. Todas estas coisas. E como um país, Inglaterra irá cair atrás de outras nações desenvolvidas porque será carente de força de trabalho qualificada.


Livros são a forma que nós nos comunicamos com os mortos. A forma que nós aprendemos as lições destes que não estão mais entre nós, o que a humanidade construiu para si mesma, progrediu, fez o conhecimento crescente ao invés de alguma coisa que tinha de ser reaprendida, de novo e de novo. Existem histórias que são mais antigas do que a maioria dos países, histórias que sobreviveram as culturas e os edifícios nos quais elas foram contadas a primeira vez.


Eu acho que nós temos responsabilidades com o futuro. Responsabilidades e obrigações para com as crianças, para os adultos que estas crianças irão se tornar, para o mundo que eles irão se encontrar habitando. Todos nós - como leitores, como escritores, como cidadãos - temos obrigações. Eu acho que vou tentar e enumerar algumas destas obrigações aqui.


Eu acredito que nós temos uma obrigação de ler por prazer, em lugares públicos e privados. Se nós lermos por prazer, se outros nos verem lendo, então nós aprenderemos, nós exercitaremos nossas imaginações. Nós mostraremos aos outros que ler é uma coisa boa.


Nós temos uma obrigação de apoiar bibliotecas. De usar bibliotecas, de encorajar outros a usar bibliotecas, de protestar contra o fechamento de bibliotecas. Se você não valoriza bibliotecas então você não valoriza informação ou cultura ou sabedoria. Você está silenciando as vozes do passado e você está ferindo o futuro.


Nós temos uma obrigação de ler em voz alta para nossas crianças. De ler para elas coisas que elas irão gostar. De ler para elas histórias das quais nós já estamos cansados. De fazer vozes, de fazê-las interessante, não parar de ler para elas apenas porque elas aprenderam a ler sozinhas. Use o momento de ler em voz alta como um momento de ligação entre vocês, como um momento quando nenhum telefone está sendo checado, quando as distrações do mundo são colocadas de lado.


Nós temos uma obrigação de usar a linguagem. De nos estimular. De descobrir o que as palavras significam e como usá-las, de nos comunicarmos claramente, de dizer o que nós queremos dizer. Nós não devemos congelar a linguagem, ou fingir que é uma coisa morta que deve ser reverenciada, mas nós devemos usá-la como uma coisa viva, que flui, que pede emprestado palavras, que permite que significados e pronúncias mudem com o tempo.


Nós escritores - especialmente escritores para crianças, mas todos os escritores - temos uma obrigação com nossos leitores: a obrigação de escrever coisas verdadeiras, especialmente importante quando você está criando histórias de pessoas que não existem em lugares que nunca foram - para entender que a verdade não está no que aconcetece mas no que isso nos diz sobre quem nós somos. Ficção é a mentira que conta a verdade, afinal de contas. Nós temos uma obrigação de não chatear nossos leitores, mas de fazê-los virar as páginas. Uma das melhores curas do leitor relutante, afinal de contas, é uma história que eles não pode parar de ler. E enquanto nós devemos dizer aos nossos leitores coisas verdadeiras e dar a eles armas e armaduras e passar qualquer sabedoria que nós recolhemos de nossa curta passagem por este mundo verde, nós temos uma obrigação de não pregar, não dar uma palestra ou sermão, não forçar morais e mensagens predigeridas pelas gargantas de nossos leitores como pássaros adultos alimentando seus bebês com larvas pré-mastigadas; e nós temos uma obrigação de nunca, nunca, sob nenhuma circunstância, escrever qualquer coisa para crianças que nós mesmos não gostaríamos de ler.


Nós temos uma obrigação de entender e reconhecer que como escritores para crianças nós estamos fazendo um trabalho importante, porque se nós fizermos besteira e escrevemos livros chatos que afastam crianças da leitura e dos livros, nós teremos reduzidos nosso próprio futuro e diminuído o deles.


Nós todos - adultos e crianças, escritores e leitores - temos uma obrigação de sonhar acordados. Nós temos uma obrigação de de imaginar. É fácil fingir que ninguém pode mudar nada, que nóe estamos em um mundo em que a sociedade é enorme e os indivíduos são menos do que nada, um átomo em uma parede, um grão de arroz em uma plantação. Mas a verdade é indivíduos mudam o mundo de novo e de novo, indivíduos fazem o futuro, e eles fazem isso imaginando que as coisas podem ser diferentes.


Olhe ao seu redor. Literalmente, eu quero dizer. Pare por um momento e olhe ao redor na sala que você está. Eu vou apontar uma coisa tão óbvia que tende a ser esquecida. É isto: que tudo que você pode ver, incluindo as paredes, foi, em algum ponto, imaginado. Alguém decidiu que foi fácil sentar em uma cadeira do que no chão e imaginou a cadeira. Alguém tinha que imaginar uma forma que eu poderia falar com você em Londres nesse momento sem que nós todos pegássmos chuva.. Esta sala e as coisas nela, e todas as outras coisa neste prédio, nesta cidade, existem porque, de novo, e de novo, e de novo, pessoas imaginaram coisas.


Nós temos uma obrigação de fazer coisas bonitas. Não deixar o mundo mais feio do que nós o encontramos, não esvaziar os oceanos, não deixar nossos problemas para a próxima geração. Nós temos uma obrigação de limpar o que sujamos, e não deixar para as nossas crianças um mundo que nós quebramos e bagunçamos com a nossa miopia.


Nós temos uma obrigação de dizer aos nossos políticos o que nós queremos, de votar contra políticos de qualquer partido que não entendam o valor da leitura em criar cidadãos de valor, que não querem agir para preservar e proteger o conhecimento e encorajar a leitura. Isto não é uma questão de política de partido. É uma questão de humanidade.


Albert Einstein foi questionado uma vez como nós poderíamos tornar nossas crianças inteligentes. Sua resposta foi ao mesm otempo simples e sábia. “Se você quer que seus filhos sejam inteligentes,” ele disse, “leia contos de fadas para eles. Se você quer que eles sejam mais inteligentes, leia para eles mais contos de fadas.” Ele entendeu o valor da leitura, e da imaginação. Eu espero que nós possamos dar a nossas crianças um mundo em que eles irão ler e ser lidos, e imaginar, e entender.


• Esta é uma versão editada da palestra de Neil Gaiman para a Reading Agency, realizada na Segunda-feira, 14 de outubro no Barbican em Londres. A série de palestras anuais da Reading Agency foi iniciada em 2012 como uma plataforma para levar escritores e pensadores a compartilhar ideias originais e desafiadores sobre a leitura e bibliotecas.

sábado, 7 de setembro de 2013

Por que o transporte público é e sempre será uma porcaria?


Essa semana aqui no Rio de Janeiro temos visto uma sequência de problemas com o sistema de trens, mas as reclamações com o transporte público na cidade, no estado e no país não são de hoje, vide as manifestações de julho que eclodiram devido a questão dos aumentos abusivos.


A questão é que não é por causa de 20 centavos, é talvez por causa de 20 milhões ou até mais que os empresários do transporte, e aí podemos incluir trens, barcas, metrô e ônibus (normal ou BRT) lucram oferecendo um serviço porcaria.


Mas por que isso continua desse jeito, e continuará sempre?


Quanto dinheiro você acha que os empresários ganham com um transporte lotado, tão lotado que pessoas passam mal nele? Com certeza é muito mais do que ganhariam se este viesse com uma quantidade que seria confortável para os usuários.


Começou a fazer a matemática?


Então vamos mais além.


A utilização deste equipamento com uma capacidade muito acima do que é recomendado (e do que é aceitável, seja tecnicamente, humanamente ou legalmente) aumenta o seu desgaste ao ponto dele dar defeitos frequentes como os que tem sido noticiados, com isso se faz necessário trocar estes equipamentos e renovar as frotas. E aí vem o pulo do gato.


Como a exploração de transportes públicos pela iniciativa privada é uma concessão, para renovar a frota, ou fazer quaisquer reformas e melhorias, isso é realizado através de um requerimento ao Tribunal de Contas, ou seja uma boa parte da grana para este investimento vem dos impostos. Do meu bolso e do seu.


É isso mesmo. Você paga o imposto e mais a passagem para ficar em uma lata de sardinha cheirando suvaco com ar condicionado quebrado (quando tem). E adivinha quem enfia essa dinheirama toda no bolso?

Começando a entender porque a situação está assim e não tem a menor chance de melhorar?

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Bienal do Livro 2013 - 1o dia

29/8/2013

No momento que escrevo estas palavras estou sentado em um café dentro do Riocentro, aguardando o início de um debate com o tema: “Nobos tempos, novos escritores” e sinto meu coração acelerar ao pensar que sou um destes novos escritores.

Fiz o meu credenciamento como autor no site da bienal a cerca de uma semana, e desde então fiquei em um estado de ansiedade e agitação. É a minha primeira bienal como um autor publicado.

Por várias vezes fiquei imaginando que seria barrado na entrada, afinal sou apenas um contista, não tenho nem ao menos um livro com meu nome na capa (ainda!), mas isso tudo se mostrou uma fantasia da minha cabeça. A verdade é que eu só relaxei mesmo quando, após mostrar a minha credencial na entrada, o rapaz fez sinal para que eu entrasse.
Sempre foi tão bonito assim? Ou o meu olhar estava iluminado por estar ali em uma nova condição?

Dei-me conta agora a pouco que já faz pelo menos seis anos desde que eu pisava em uma bienal. E tenho a sensação de que os estandes estão mais arrumados, mais belos, os livros gigantes pendurados no estande da Novo Conceito são a coisa mais legal que eu vi até agora.

Enquanto caminhava minha bola foi baixando um pouco. Ninguém ali sabia que eu era autor. Não haveriam eventos para mim, eu não daria palestras nem autógrafos.

Ao chegar no estande da Saraiva, vi alguns terminais para inscrição no Publique-se, sistema de autopublicação criado por esta livraria/editora para fazer frente aos novos tempos e ao questionar alguns pontos duvidosos do termo de compromisso aos atendentes fui interpelado pelo próprio criador da plataforma com quem troquei alguns argumentos e que soube defender muito bem o seu peixe.

Saí de lá com a mesma sensação que me contaminou desde o meu credenciamento pela internet. Que se dane que ninguém ali soubesse que eu sou um autor, eu sabia! E ninguém poderia tirar isso de mim.

* * *

O Café Literário foi um pouco frustrante. Acabou sendo muito mais uma apresentação dos quatro autores envolvidos, que supostamente representariam a nova geração de escritores, mas fiquei com a sensação de que o tema proposto (“Novos tempos, novos escritores) não foi sequer arranhado.

Ao sair de lá, tentei chegar a tempo no Espaço Ziraldo para assistir a apresentação de uma peça cantada pelo Menino Maluquinho com histórias de dois livros de seu criador (Flicts e Bichinho da Maçã), mas quando consegui chegar lá (após me perder um pouquinho. rs) a apresentação já havia começado e fiquei sem graça de entrar no meio.
Decidi sair de lá e voltar para assistir um outro dia.

E ao sair dali, passei em frente ao estande da Federação das Associações Muçulmanas do Brasil e fiquei vendo alguns dizeres nos murais explicativos lá e fui convidado por um expositor para entrar e conhecer o estande. Lá dentro, após ver alguns livros expostos, vi que este expositor (chamado Moisés, ou Musla, como ele explicou depois), estava em um papo animado com um rapaz e uma senhora, que se revelaram serem um padre chamado Lélio e sua mãe chamada Jussara, uma figura dourada com opiniões fortes e sem o menor medo de expressá-las.

Acabamos formando um grupo de debate que por umas duas horas trocou informações sobre religião, fanatismo, respeito, etc com a participação posterior de uma jovem muculmana chama Silvia e um outro expositor que eu não lembro o nome, mas que todos se referiram como o carioca (outros expositores eram de São Paulo, Minas, etc).

Saí de lá com um exemplar do Alcorão Sagrado e a sensação de uma deliciosa experiência de troca respeitosa de opiniões.

Depois disso, ao sair da Bienal, tirei a minha credencial de autor e sorri para ela, guardando-a com cuidado em minha bolsa. A primeira de muitas, assim espero.


quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Reflexões Acerca do Aborto


Quero começar dizendo que sou contra o aborto.

Essa é a parte fácil. Ser contra. Ser a favor. Posições extremas são simples. Fáceis.

Na minha adolescência, fiz um trabalho sobre o tema para o colégio. Pesquisei a fundo, tive a ajuda de parentes que faziam parte de um grupo anti-aborto que me mandaram um monte de material que descrevia os vários métodos de aborto, reflexões religiosas e filosóficas, dados estatísticos, etc.

Tirei uma nota ótima no trabalho, mas aquelas informações nunca mais me abandonaram. E a partir delas, fiquei com muita raiva de todas mulheres que cometiam aborto. Afinal, era um assassinato, o que tornava essas mulheres criminosas.

Mas o Destino, esse velho safado que fica se divertindo assistindo a vida de nós pobres mortais em uma TV gigantesca tomando cerveja, me pregou uma peça (uma não, várias) e ao longo dos anos, eu tive amigas que se sentiram a vontade para compartilhar comigo terem vivido essa experiência.

Aquelas mulheres não eram os monstros que eu imaginara, eram mulheres doces, minhas amigas. Muitas se arrependiam de terem feito um aborto, algumas o fizeram por riscos a sua própria vida, outras por pressão familiar ou do namorado, ainda havia as que fizeram por vergonha, como se tivessem feito algo errado, sem esquecer aquelas que o fizeram por não considerarem o “momento certo”.

A maioria delas me contou como seus namorados não se opuseram as suas decisões, mas também não deram nenhum apoio, no máximo se ofereciam para pagar o procedimento, quase como se não tivessem, ou não quisessem nenhuma responsabilidade no ato.

Em pesquisas recentes, foi divulgado que uma em cada quatro mulheres que fazem aborto no Brasil morrem no procedimento, na maioria das vezes em clínicas clandestinas, mas que todo mundo sabe o que fazem, sem nenhum cuidado ou atendimento diante de uma ação tão agressiva ao corpo da mulher. Pensar que uma de minhas amigas poderia ser uma das vítimas dessa estatística me embrulha o estômago.

Lembro de um dos meus primos que citei no início me contando que muitas das mulheres que eles abordavam no grupo anti-aborto só precisavam de uma pessoa dizendo para não fazerem. Isso era tudo o que bastava para desistirem.

Diante destes relatos, muitas vezes emocionados, eu comecei a questionar e refletir.

Será que todas as mulheres que fazem um aborto estão fazendo isso por escolha, realmente? E se estiverem, elas teriam realmente o direito de “fazer o quiserem com seus corpos”, como muitos grupos pró-aborto propagam? Será que podemos considerar o embrião um ser vivo ou ele só pode ser assim considerado quando já é um feto (depois de nove semanas)? Será que se os homens fossem mais participativos, menos abortos seriam realizados? Ou até teríamos menos crianças sem uma figura paterna presente (desculpe se estou divagando, mas acho pertinente? Será que manter o aborto como crime está fazendo algum bem a sociedade? Afinal, mesmo proibido o aborto continua acontecendo, e mulheres continuam morrendo na mão de carniceiros que se dizem médicos. Será que descriminalizar causaria um aumento dos abortos? E temos números atualmente para comparar? Ou será que descriminalizar permitiria um acompanhamento psicológico a essas mulheres que poderiam até mudar de ideia? O embrião ou o feto (considerando-o como ser vivo) fruto de um estupro poderia ser penalizado pelo ato do estuprador? E a mulher, deveria ser obrigada a dar continuidade a uma gravidez não apenas não desejada, mas decorrente de um ato de violência que deixará marcas que vão além de seu corpo?

Muitas perguntas, não tenho respostas.

Na verdade, apenas uma: No geral, continuo contra o aborto. Mas, como já disse, essa é a parte fácil.



segunda-feira, 5 de agosto de 2013

12 Histórias Assustadoras Curtas

Eu não escrevi nenhuma dessas histórias, estou apenas traduzindo o que foi publicado aqui: 
http://themetapicture.com/12-scary-two-sentence-stories/

Gostei tanto delas que quis compartilhar com quem não podia ler em inglês.
Bom proveito!

1.
Você chega em casa, cansado de um longo dia de trabalho e se prepara para uma relaxante noite sozinho. Você estica a mão para o interruptor, mas outra mão já está ali.

2.
Eu acabei de ver o meu reflexo piscar.

3.
Você ouve a sua mãe chamando você da cozinha. Quando você está descendo as escadas você ouve um sussurro do armário dizendo "Não vá lá, querida, eu ouvi também."

4.
Os médicos disseram ao amputado que ele poderia experimentar um membro fantasma de tempos em tempos. Entretanto, ninguém o preparou para os momentos quando ele sentiu dedos gelados deslizando pela sua mão fantasma.

5.
Ela perguntou por que eu estava respirando tão pesado. Eu não estava.

6.
O ataque do coração veio e foi, derrubando Mike na inconsciência, e conforme ele acordou ele podia ouvir o serviço do funeral ao redor dele. De alguma forma o caixão era translúcido para ele e ele reconheceu alguns dos seus amigos, mas seu corpo não se movia e ele percebeu com terror o que a morte realmente era.

7.
Eu comecei a enfiar ele na cama e ele me disse, "Papai, chegue por monstros debaixo da minha cama." Eu olhei lá embaixo para brincar com ele e o vi, outro ele, sob a cama, olhando de volta para mim tremendo e suspirando, "Papai, tem alguém na minha cama."

8.
Minha filha não parava de chorar e gritar no meio da noite. Eu visitei o túmulo dela e pedi que parasse, mas não adiantou.

9.
Quando eu finalmente a agarrei nas trevas, nadei de volta para a superfície. Nunca me ocorreu quão rápido o gelo poderia congelar de novo.

10.
Após trabalhar um dia duro eu fui para casa para ver a minha namorada embalando nosso filho. Eu não sei o que era mais assustador, ver a minha namorada morta e meu filho nascido morto, ou saber que alguém invadiu o meu apartamento para colocá-los ali.

11.
O último homem na Terra sentou sozinho em uma sala. Houve uma batida na porta.

12.
Cara, para onde a aranha foi?

Particularmente eu adorei a terceira, a sétima e a décima.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

FORA CABRAL!... E o resto?



As manifestações populares que começaram a quase dois meses começaram a ganhar, ao menos aqui no Rio de Janeiro, uma polarização. O grito de ordem, com poucas variações, se transformou em "Fora Cabral!" mobilizando-se contra o governador Sérgio Cabral, principalmente após o uso de força excessiva pela polícia militar e as evidências do uso de policiais militares infiltrados para realizar atos de vandalismo que justifiquem essa força excessiva.

Para mim fica a questão: E o resto?

Quando essas manifestações começaram, o mote principal era a questão do aumento das passagens de transportes públicos, mas essa era apenas a ponta do iceberg, haviam reinvidicações de melhoras neste mesmo serviço, pedidos de maiores investimentos na educação e saúde, abandonadas a vários governos e hoje quase sucateadas, haviam denúncias de desvios de verbas, abuso de dinheiro público, UPAs que só funcionavam na propaganda do governo. Onde tudo isso foi parar?

Por todo o país, onde as manifestações estavam perdendo um pouco do gás, novas manifestações surgiram em apoio às cariocas e o grito "Fora Cabral!" começou a ser ouvido além das fronteiras. Em São Paulo ele se uniu ao "Fora Alckmin" e "Fora Haddad", respectivamente governador e prefeito de lá, que são opositores políticos. Em outros lugares gritos similares começam a ser ouvidos junto com "Fora Cabral", o que demonstra que a insatisfação popular não é contra uma pessoa ou partido, mas contra todo um sistema que estimula e valoriza a corrupção e ignora as necessidades da população.

Mas minha preocupação é que este foco do "Fora..." não acabe sendo benéfico a este sistema e, novamente vejamos mortes (possivelmente por suicídios duvidosos) e impeachments de bodes expiatórios (que de nada adiantarão pois os retirados voltarão anos depois se fazendo de vítimas) mostrando que em 20 anos não aprendemos nada com o caso Collor.


quinta-feira, 27 de junho de 2013

Sorteio 100 Likes

Para comemorar os 100 "curtir" na minha página do facebook (https://www.facebook.com/sandroquintanaescritor) eu decidi sortear um exemplar de cada uma das duas antologias que participo, junto com dois livretos feitos por mim com contos meus. O formulário de participação é este aí embaixo, e é preciso residir no Brasil.



Boa sorte a todos!

a Rafflecopter giveaway

PS: É a minha primeira experiência com o rafflecopter, então eu espero que dê tudo certo.

Você gosta de azeitona?

"Eu sou maior do que todos os meus rótulos."
- Michael White

Você  gosta de azeitona?

Sim, estou perguntando isso a você. Você que está lendo isso agora.

Você gosta de azeitona?

Imagino uma grande diversidade de respostas, além dos vários "sim" e "não", há a possibilidade de "apenas verdes", "apenas pretas", "só na pizza", "não gosto, mas como", etc.

Mas e se eu tivesse aqui comigo um vidro de azeitonas e te perguntasse "Você gosta destas azeitonas?"

A resposta não viria tão fácil, não é?

Afinal, você não sabe como são estas azeitonas.

Ao olhar o rótulo, você poderia ter diversas informações sobre elas, se são pretas ou verdes, com caroço ou sem caroço, qual a empresa que as coloca em conserva e as distribui, quantas calorias, proteínas, gorduras e sódio elas possuem. Mas saber disso tudo responderia a minha pergunta? Você gosta dessas azeitonas?

Então, o que seria necessário para obter uma resposta?

Seria necessário que você abrisse o vidro, pegasse a azeitona, sentisse a sua textura em contato com a sua pele, seu formato, seu cheiro. E por fim, colocasse em sua boca e absorvesse o seu sabor.

Sabor este que pode ser ácido, amargo, pungente, picante, salgado, adocicado, e uma outra infinidade de sabores diferentes. Só aí você poderá dizer se gosta ou não destas azeitonas.

Com as pessoas é a mesma coisa.

Enquanto ficamos apenas em seus rótulos, coletando informações, podemos dizer se gostamos do rótulo, mas não das pessoas. Apenas quando nos abrimos para conhecer as pessoas, para nos relacionarmos com elas e nos darmos conta das sensações que elas nos causam é que podemos verdadeiramente dizer o que achamos delas.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

A Revolução Sem Rosto

O movimento que começou algumas semanas atrás e tem gerado manifestações por todo o Brasil e ao redor do mundo ainda precisará conseguir um nome nos livros de história. Não é apenas por causa de 20 centavos, e nem é o Movimento do Passe Livre, como a mídia tem tentado direcionar, apesar destas terem sido as sementes que iniciaram tudo.

Nem é o movimento algo ligado a partido ou contra qualquer partido, apesar de muitos tentarem puxar a sardinha para a sua brasa ou canalizar as chamas para queimar o adversário.

Nesta necessidade de um nomenclatura, alguns usam o nome do MPL, outros chamam de "Primavera Brasileira", em uma associação com os movimentos populares no oriente médio, há ainda as milhares de hashtags que se espalham pelas redes sociais buscando por um nome, o mais comum sendo #MudaBrasil.

Mas a verdade é que esta é uma Revolução Sem Nome.

Esta é uma Revolução Sem Rosto.

E é sem rosto porque tem milhões de rostos. Milhões de pessoas que emprestam o seu rosto a um movimento que clama por mudanças. Em uma expressão da singularidade humana em meio a uma coletividade.

Somos os rostos que vão a rua, gritar "Sem Violência", carregando cartazes cada um com seus ideais e filmando o que realmente está acontecendo e a mídia não quer mostrar.

Somos os rostos na janela, atuando como testemunhas, aplaudindo e liberando wi-fi para que a verdade alcance o mundo.

Somos os rostos que em frente a uma tela de computador, compartilham vídeos e relatos, disseminando informação, esclarecendo, comentando.

Somos os rostos de outros países, que se tornam nesse momento um pouco brasileiros, assim como nós nos tornamos um pouco canadenses, turcos, sírios, russos, portugueses e argentinos. Pois nosso clamor vai além das fronteiras.

E cada rosto empresta ao movimento sua voz, que de uma forma ainda difusa em uma cacofonia ensurdecedora para os governantes se unem em um brado retumbante:

BASTA!


Um Futuro Cada vez Mais Presente

João vai ao consultório do psicólogo, e começa a falar já em lágrimas:

- Eu vim aqui, porque meu pai morreu...

O psicólogo o interrompe:

- Antes de começarmos, você trouxe o seu encaminhamento médico?

- Encaminhamento?

- É! Antes de poder atendê-lo eu preciso de um encaminhamento feito por um médico dando o seu diagnóstico que irá conduzir o meu trabalho.

- Mas, mas, eu não tenho.

- Então não posso fazer nada.

- Mas, eu estou com uma tristeza tão profunda, uma melancolia, uma sensação de vazio profunda.

- Aí que você se engana. Você precisa ir em um médico para que ele possa atestar que você tem tristeza, melancolia ou vazio. Dessa forma fica muito vago, é preciso um diagnóstico preciso e isso só um médico pode fazer.

- Mas já tem mais de duas semanas que isso aconteceu e ...

- Aí já é um transtorno de humor. Mas por favor, não fale pra ninguém que eu disse isso. Eu posso ser preso por exercício ilegal da medicina. Vá a um médico e pegue o seu encaminhamento.

João conseguiu marcar o médico apenas três meses depois, sobrecarregado com pessoas que procuravam tratamentos psicológicos, fonoaudiológicos, fisioterápicos, etc. Após dez minutos saiu com uma prescrição de rivotril duas vezes por dia e dez sessões de psicoterapia, com indicação para retornar quando acabasse, tanto o rivotril quanto a terapia, para que o médico avaliasse se precisava de mais.

Este é o futuro que a Lei do Ato Médico e o DSM-V nos acena. E está cada vez mais presente nos planos de saúde e serviços públicos.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Livro Para Ouvir

Após ler a coluna a respeito de audio livros do meu colega escritor Andre Zanki Cordenonsi (clique aqui para ver) na Revista Fantástica, fiquei com vontade de compartilhar a minha experiência com esta forma alternativa de literatura.

Lembro de um pequeno stand dentro da livraria saraiva pelo qual eu as vezes passava com certa curiosidade que continha estes tais audio livros, mas eu os achava muito caros e ao mesmo tempo a maioria eram livros clássicos de copyright livre e por isso facilmente encontráveis pela internet de forma gratuita. Os que não se enquadravam nessa classificação eram livros que não me interessavam muito e/ou eu não me arriscaria a pagar o preço deles (que eu considerava alto, como já coloquei) apenas para experimentar.

A minha primeira experiência com este tipo de material aconteceu enfim em 2008 quando, ao participar de um encontro do site de relacionamentos skoob (http://www.skoob.com.br) eu recebi de brinde dois livros desses em forma de discos de dvd produzidos pela editora plugin. Lembro que na época algumas pessoas devolveram dizendo não gostar de audio books, mesmo afirmando nunca terem experimentado quando questionadas. Eu guardei os meus e deixei pra lá.

Foi apenas cerca de um ano depois que eu resolvi "ler" um desses livros. No caso o título era "Marley e Eu" e eu fui colocando os capítulos aos poucos no meu celular para escutar no ônibus, no metrô e até caminhando pela rua. A história de John Grogan com seu cachorro reverberou na minha própria história com Endy, minha cadela que viveu comigo dos meus cinco aos meus dezoito anos, mas acho que a narração de Luís Mello acentuou ainda mais minhas emoções me fazendo rir, gargalhar e debulhar-me em lágrimas em público.

Até hoje não "li" o outro audiolivro que ganhei naquele evento, mas um gênio havia saído da garrafa e eles são difíceis de se expremer de volta. De lá para cá tive boas experiências com audio livros, uma amiga me emprestou "Comer, Rezar e Amar" e acabei comprando a continuação "Comprometida", mas também tive experiências ruins como quando ouvi o livro "O Caçador de Pipas", mas nesse caso não culpo o formato em áudio, já que depois li o livro escrito e não o achei nem um pouco melhor.

Mais recentemente conheci a Radiola Literária (http://radiolaliteraria.blogspot.com.br/) um programa de audiocontos de autores brasileiros, dos quais eu recomendo o "Reflexões" de meu outro colega Paulo Fodra e também conheci a versão de audiobooks da amazon, o audible.com através de um audio conto disponibilizado pelo meu autor favorito Neil Gaiman, que é totalmente assustador (se conhecer a língua inglesa e quiser ver este conto, vá em http://audible.com/scareus e baixe gratuitamente).

Não sei se algum dia o audiolivro vai se firmar, se as pessoas vão perder o preconceito com ele, mas o que eu posso dizer da minha experiência é: Experimente! E então depois crie suas opiniões a respeito, ao invés de fazer o contrário.

Mais uma coisa antes de ir: Fiquei com muita vontade de gravar um audioconto eu mesmo. :)

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Tenha Medo!




A partir de hoje, eu faço parte do elenco permanente de escritores do projeto Um Ano de Medo.

Leia a primeira parte da história "Homem dos Sonhos" e aguarde a continuação daqui a duas semanas.

Homem dos Sonhos (I)

Aproveitem para conhecer minha primeira participação no projeto, como escritor convidado, com o conto "Deixando as Profundezas".

Deixando as Profundezas

Divirtam-se e grande abraço!

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Mera Coincidência


Uma das melhores formas de conduzir um povo é através do medo. Machiavel já dizia isso em seu "O Príncipe", manual da idade média para o exercício de poder de um governante. Nele, o autor diz que existem duas formas de controlar o povo, através do amor e do medo. Mas, ressalva Machiavel, o amor é muito inconstante e, por isso, ele recomenda que um governante controle seu povo através do medo, que é muito mais confiável.

Apesar deste recurso poder ser traçado antropologicamente desde os tempos das cavernas, quando as tribos se enfrentavam e se odiavam apenas por uma diferença física ou por possuírem diferentes rituais e cerimônias, um dos usos mais marcantes do governo do medo em nossa história data de meados do século passado, no fascismo que levou à Segunda Guerra Mundial. Cerca de apenas 70 anos de nosso presente.

O maior expoente desta prática foi Adolf Hitler, que em seus discursos pregava contra os ciganos, os judeus, os negros e os homossexuais como sendo a causa de todos os problemas de seu tempo, e que o povo deveria apoiá-lo em sua missão de limpar o mundo destes seres nocivos em nome de Deus. A população, abatida pela crise econômica e social que tocava o mundo na década de 30 do século XX, estava ávida por encontrar um culpado por sua miséria, e engoliu o discurso de Hitler sem uma única mastigada garantindo-lhe o poder para iniciar um dos períodos mais terríveis de nossa história recente.

Claro que tudo isso que escrevi aqui trata-se de mera informação histórica, e qualquer relação com pessoas atuais, como por exemplo deputados, senadores ou líderes religiosos, é mera coincidência.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Degustação de "O Guardião da Ceifadora de Almas"

Abaixo segue uma prévia do meu conto "O Guardião da Ceifadora de Almas", que sairá em breve na antologia "Destinos Fantásticos".



segunda-feira, 1 de abril de 2013

O Abril dos Tolos


Os povos antigos costumavam se guiar nos ciclos das estações através de um contato profundo e direto com a natureza. Desta forma, eles consideravam a renovação do ciclo solar como o início da primavera (no hemisfério norte, na mesma época em que ocorre o início do outono no hemisfério sul), ao invés de tentar encaixá-lo em um calendário artificial como fazemos hoje em dia.

Por causa disso, após a adoção de calendários como o gregoriano (que usamos até os dias de hoje) o "ano novo pagão" caia alguns meses depois do "ano novo cristão", mais ou menos no final de março ou início de abril.

Durante a idade média, quando os povos cristãos viam as festividades pelo início da primavera e de um novo ciclo solar, ou seja um ano novo, chamavam-nos de tolos. Com o passar dos anos e das gerações, essa troça se sofisticou, com os cristãos fazendo festivais que ridicularizavam os ritos pagãos (algo como um bullying medieval) e daí surgiu a expressão "April's Fool", Tolo de Abril.

Não sei ao certo como acabou se oficializando o dia primeiro de abril como o dia dos tolos e depois, em nossa cultura tornou-se o dia da mentira, mas originalmente nada mais era do que uma tentativa de desacreditar um povo e suas crenças. O fato de continuarmos a repetir tais comportamentos de desrespeito com as diferenças me faz perguntar: Quem é o tolo afinal?

PS: Isso não é uma piada de primeiro de abril.