sábado, 30 de outubro de 2010

Para que haja diá-logos

Para que haja diá-logos

Para que haja diálogo, já diz a sabedoria popular, é necessário que haja abertura. Mas que tipo de abertura é essa?

Para que haja diálogo, é necessária abertura para escutar, e não me refiro simplesmente a ter os ouvidos limpos e funcionando, mas estar aberto a possibilidade de ser transformado pela fala do outro, estar aberto a possibilidade de deixar o lugar onde se está, de mudar de opinião, de se tornar uma pessoa diferente de quem se é agora (e talvez até de se tornar mais você mesmo).

Para que haja diálogo, também é necessária abertura ao falar, essa abertura se manifesta em uma fala respeitosa, que expõe uma posição ou uma opinião exatamente como o que ela é: uma posição ou uma opinião dentre tantas outras, e não uma verdade absoluta regida por Deus e escrita em pedra imaculada e intocável.

Para que haja diálogo, é preciso, acima de tudo, abertura para ser, para ser quem se é e abertura para que o outro também o seja.

Só então, nessa abertura, os discursos se abrem e se misturam, deixando de ser meus ou seus, mas nossos, provenientes de um entre nós. Um diá-logos.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Democracia, Messianismo e Eleições 2010

"Escolher o menor de dois males, ainda é escolher um mal."
- Ditado japonês

"Eu só posso ver o que eu posso ver, eu só posso ouvir o que eu posso ouvir."
- Merleau-Pounty

Diz a sabedoria popular que futebol, política e religião não se discute. Eu discordo! O que não se discute é paixão desportiva, escolha política e convicção religiosa, em suma, o que não se discute é fé!

Fé é algo que ou se tem, ou não se tem, ponto. É exatamente nessa questão que quero tocar quando digo que a muito eu não tenho fé na democracia, especialmente na chamada "democracia representativa", sistema vigente em boa parte do mundo atual, e particularmente no nosso país.

O problema deste sistema, na minha opinião, é ele ser embasado e sustentado pelo messianismo, na espera de um salvador da pátria, um messias, que viria resolver todos os problemas da cidade, do estado, do país e do mundo. E, com isso, nunca se resolve problema algum, porque são
exatamente os problemas a mola propulsora do sistema.

No máximo, faz-se uma maquiagem, uma solução aparente do problema, apenas o suficiente para angariar votos, e quando esta não se sustenta, acusa-se o governante atual, martirizando-se o salvador anterior que, "pobrezinho", não deixaram fazer o trabalho direito.

Então ficamos neste movimento, ora a espera de um salvador que nunca vem, ora nostalgizando-se um passado onde "eu era feliz e não sabia", e o presente, onde algo pode ser feito de efetivo, se perde.

Outra característica interessande da fé, a fé verdadeira, é que ela nos abre horizontes, nos permite enxergar luz onde a razão e a lógica só nos permitiam ver escuridão e desespero. Por outro lado, a fé cega, o fanatismo, nos encurta a visão, e passamos a enxergar apenas uma possibilidade e uma verdade, a de nosso(a) salvador(a), e todos os que não conseguem vê-lo(a) como você são vendidos, manipulados, neoliberais, comedores de criancinhas, comunistas, hippies, maconheiros, ingênuos, iludidos, pré-conceituosos, utópicos... e todos as demais novas
nomenclaturas para os hereges infiéis (aliás, interessante comentar que "herege" é a palavra grega para "diferente").

Diante desta dinâmica, perdoamos todos os erros e todos os defeitos de nosso salvador, e ainda acusamos quem os aponta de "má-fé", o que não deixa de ser verdade, afinal no fanatismo só se faz possível olhar para qualquer possibilidade que não a nossa como "má", e nessa dicotomia do certo e do errado, do bem e do mal, perde-se toda a diversidade das multiplas possibilidades, e com isso não percebemos que o outro está apenas fazendo o mesmo movimento que nós, ou quando percebemos este movimento fanático no outro, não somos capazes de enxergá-lo em nós mesmos.

Chegamos ao ponto de nos esquecermos que estamos depositando nossa fé em seres humanos, não em deuses. E todos os seres humanos tem qualidades e defeitos... ou como eu prefiro chamá-las, características que eu gosto e características que eu não gosto (pois dessa forma me coloco no olhar, ao invés de fazer referência a uma suposta medida "soberana" e "imparcial").

Peço então que no próximo domingo, votem com o coração sim, com fé em ideais, não em pessoas, mas também votem com a cabeça, analizando a história, os erros e os acertos (sob o seu próprio ponto de vista e assumindo-o como tal) de cada candidato, e principalmente, votem com conciência, de que quem quer que ganhe, de que a responsabilidade pela cidade, pelo estado, pelo país, e pelo mundo que se constrói, também é sua, e não apenas no momento da eleição, para tranferí-la para outros.

Grande abraço!