quarta-feira, 27 de junho de 2012

Sonhos

Alguns dizem que não se deve acreditar.
Outros que é preciso construí-los.
Há aqueles que não param de pensar neles.
E os que imaginam um atrás do outro.
Mas não é nada disso!
Sonhos são para serem vividos.
Quando você sonha, você apenas vive o sonho.
O que nos impede de fazer o mesmo de olhos abertos?

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Conto - Carta da Rio+200 para a Rio+20


Meu avô contava que este deserto infindável um dia havia sido uma floresta. E não uma floresta qualquer, mas a maior floresta de todo o mundo.
Eu não sei se é verdade. Meu avô gostava de exagerar em suas histórias.  E eu adorava ouvi-lo contá-las.
Ele morreu alguns meses atrás.
Câncer!
Assim como todos os outros da minha tribo.
Eu sou o último.
Ele também dizia que o riacho de água barrenta que sempre saciou a sede de nossa tribo um dia foi um rio gigantesco. Tão largo e com tanta água que você não conseguia ver a outra margem.
Mais um de seus exageros, sem dúvida.
De qualquer forma, tudo o que restou foi esse deserto escaldante, onde o céu é constantemente azul, e quando há nuvens, isso não é motivo de alegrias, mas de preocupação, pois as tempestades que elas trazem são tão violentas tanto em enxurrada quanto em raios e trovões, que é preferível permanecer com o sol.
Hoje está um dia fresco. Apenas 50 graus celsius.
Segundo meu avô, o fim da floresta e do rio, as cidades afundadas pelo mar crescente (e meu avô adorava contar histórias sobre cidades afundadas, principalmente de uma que tinha o nome de rio), tudo enfim, foi por causa de um tal dinheiro. Que as pessoas se matavam por ele, e viviam para ele.
Como eu não sabia o que era, meu avô me mostrou algumas folhas coloridas que ele guardou consigo. “Para lembrar dos velhos tempos”, dizia.
Depois que ele morreu, eu resolvi provar uma delas para ver se o gosto era tão bom assim para valer isso tudo.
Era horrível!
Talvez a folha estivesse velha e passada, não sei. Apesar que eu tomei o cuidado de escolher uma bem verdinha.
Ou talvez meus antepassados fossem simplesmente malucos.
Pensei em jogar todas as folhas fora, mas acabei guardando. Elas me lembram do meu avô e são bonitas, com todas as suas cores e símbolos. Quem sabe não era por isso que meus ancestrais faziam tudo por elas?
Será que não percebiam o que faziam com a mãe terra por umas folhas coloridas de gosto ruim?
Meu avô dizia que não.
Que eles chegaram a dizer que não era culpa deles, e que era capaz de seus descendentes até agradecerem pelo aumento do calor.
Eu sou seu descendente. E agradecimento está muito longe do que eu quero dizer a vocês.
Mas ofender vocês agora também não vai adiantar nada.
Eu não sei se alguma coisa ainda vai adiantar.
Mas eu estou tomado pela doença e pela solidão. Assim como aconteceu com o meu avô e com o resto da minha tribo, eu também estou morrendo. E já faz um mês que eu não vejo outra viva alma neste deserto.
Se a mãe terra, em sua infinita sabedoria, me conceder esta última dádiva, e esta mensagem puder chegar até vocês, meus ancestrais, eu trago essa mensagem:
Façam alguma coisa!
Por menor que possa parecer, façam alguma coisa para impedir que este mundo, este deserto sem fim, venha a existir.
Se vocês conseguirem, aí sim, seus descendentes terão algo a lhes agradecer.

Tomé, Deserto Amazônico, 20 de junho de 2192

sábado, 16 de junho de 2012

"Nada não. Eu só gosto de fazer polêmica."

"Nada não. Eu só gosto de fazer polêmica."

Recentemente tive um papo com uns amigos sobre um certo humorista (ou pelo menos assim ele se denomina), que após fazer várias piadas agressivas e sem graça, resolveu se por de vítima da sociedade feia e má que não entendeu suas brincadeiras, ao invés de admitir que errou na dose e se desculpar com seu público.

Esse papo me lembrou de uma colega de faculdade que adorava fazer uns comentários e contar umas histórias completamente fora do contexto das discussões rolando na aula. Particularmente ele adorava contar uma história que, segundo ela, era uma crítica a falta de solidariedade humana nos dias de hoje. Depois de ouvir a tal história umas 20 vezes, sendo usada em meio as mais variadas discussões, um certo chato (esse que vos escreve) resolveu perguntar "Fulana, mas o que isso tem a ver com o assunto aqui?" e a resposta dela foi (mais de uma vez, porque eu sou brasileiro e não desisto): "Nada não. Eu só gosto de fazer polêmica."

E ela realmente fazia. Pois a discussão se perdia e todos se voltavam para comentar a história dela. O mais incrível é que ninguém percebia o fato dela já ter contado a mesma história sei lá quantas vezes. E eu, ao questionar a relevância da mesma é que era considerado o chato.

Agora, você pode me perguntar (como eu fiz a tal fulana), Sandro, o que isso tem a ver com o humorista do primeiro parágrafo? TUDO! As duas pessoas não têm o que acrescentar então resolvem gerar polêmicas. Por que? Porque vende! Porque atrai atenção! E o que essas pessoas querem, não é gerar polêmicas, mas sim ter atenção.

E dá-lhe humoristas que fazem piadas sem graça com estupro e deficientes, modelos popozudas raspando o cabelo em rede nacional, apresentadoras de audiência descendente fazendo revelações bombásticas, atrizes de habilidade duvidosa que se deixam fotografar sem calcinha, seguindo a máxima de um velho ex-presidente "Falem mal, mas falem de mim". E tudo isso estoura na mídia. E estoura porque nós consumimos isso! Um monte de baboseira que não nos acrescenta me nada mas nós ficamos ávidos por mais e mais. E quando digo "nós" não estou de maneira alguma me isentando da minha responsabilidade nesse circo dos horrores. Tanto é que eu tenho certeza de você ter identificado a maioria das pessoas citadas aqui sem muito esforço.

Então taí, eu também resolvi fazer polêmica... espero que tenha conseguido com um pouco mais de conteúdo para sua reflexão, pois esse era o objetivo.

sábado, 2 de junho de 2012

Degustação - "Os Filhos do Dragão"

Um trecho de "Os Filhos do Dragão", meu conto publicado na antologia "2013 Ano Um", para a degustação de vocês:

"Um novo burburinho se espalhou pelo salão, recheado de excitamento. Toda criança já ouvira falar dos filhos do dragão. Suas baladas eram cantadas para elas antes mesmo de nascerem. As histórias de seus feitos eram trocadas como tesouros, mesmo aquelas que muitos achavam exageradas e fantasiosas, aliás, essas eram as mais valiosas dentre todas. Eles eram a base da sua sociedade, com suas lições de companheirismo, auto-sacrifício, honra e compaixão.

O velho aguardou que as vozes mais uma vez cessassem, e quando, ao invés disso, elas foram se intensificando mais e mais, levantou sua mão de três dedos pedindo silêncio. Quando isso também não adiantou passou a bater com sua bengala no chão, buscando chamar a atenção, mas as vozes das crianças se sobrepunham às suas batidas. Mesmo assim ele continuou a bater cada vez mais forte, aos poucos imbuindo sua bengala não apenas de força física, mas também do poder que corria pelo seu corpo, gerando ondas invisíveis a cada toque desta com o chão. Quando estas ondas atingiam as crianças causavam-lhes dor e desconforto que só foi diminuindo conforme elas se calavam. O velho saboreou o silêncio conseguido, sentindo-se orgulhoso de ainda conseguir canalizar o poder desta forma, para só então continuar sua narrativa."

Se você se interessou, pode concorrer ao sorteio que estou realizando no blog aqui ou adquirir o seu exemplar na minha lojinha do estante virtual aqui. Nos dois casos você receberá como brindes um marcador de livros da antologia e um livreto com um outro conto meu "O Pesadelo dos Pesadelos".