quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Por que nosso futuro depende de bibliotecas, leituras e sonhar acordado.

Este post é a tradução de uma matéria que saiu no jornal inglês “The Guardian” onde o meu autor favorito, Neil Gaiman, faz algumas reflexões sobre bibliotecas, a importância da leitura e da imaginação para o futuro da humanidade.





Neil Gaiman: Porque nosso futuro depende de bibliotecas, leitura, e sonhar acordado.
Uma palestra explicando porque usar nossa imaginação, e prover que os outros usem a deles, é uma obrigação para todos os cidadãos.


É importante para as pessoas dizerem de que lados eles estão e porque, e se eles podem ser tendenciosos. Algo como uma declaração de interesses dos membros. Então, eu estarei dizendo para vocês que bibliotecas são importantes. Eu irei sugerir que ler ficção, que ler por prazer, é uma das coisas mais importantes que alguém pode fazer. Eu irei fazer um apelo exaltado para as pessoas entenderem o que bibliotecas e bibliotecários são,  e para preservar ambos.


E eu sou tendencioso, obviamente e enormemente: Eu sou um autor, frequentemente um autor de ficção. Eu escrevo para crianças e para adultos. Por cerca de 30 anos eu tenho ganhado a vida através das minhas palavras, sobretudo inventando coisas e as escrevendo. É obviamente do meu interesse que as pessoas leiam, que elas leiam ficção, que bibliotecas e bibliotecários existam e ajudem a alimentar um amor pela leitura e por lugares onde a leitura pode acontecer.


Então eu sou tendencioso por ser um escritor. Mas eu sou muito, muito mais tendencioso como um leitor. E eu sou ainda mais tendencioso como um cidadão britânico.


E eu estou aqui dando essa palestra esta noite, sob os auspícios da Reading Agency (Agência de Leitura): uma instituição de caridade cuja missão é dar a todos uma chance igualitária na vida ajudando as pessoas a se tornarem leitores confiantes e entusiasmados. Que apoia programas de alfabetização, e bibliotecas e indivíduos e desenfreadamente encoraja o ato de ler. Porque, eles nos dizem, tudo muda quando nós lemos.


E é sobre essa mudança, e sobre o ato de ler que eu estou aqui para falar a respeito esta noite. Eu quero falar sobre o que ler faz. Que bem pode fazer.


Eu estive uma vez em New York, e assisti a uma palestra sobre a construção de prisões privadas - uma enorme indústria em crescimento na América. A indústria das prisões precisa planejar seu futuro crescimento - quantas celas eles irão precisar? Quantos prisioneiros irão existir, 15 anos no futuro? E eles descobriram que eles podiam predizer isso muito facilmente, usando um algorítimo muito simples, baseado em perguntar qual a percentagem de crianças com 10 e 11 anos que não podiam ler. E certamente não podiam ler por prazer.


Não é um para um: você não pode dizer que uma sociedade leitora não tem criminalidade. Mas existem muitas correlações reais.


E eu acho que algumas destas correlações, as mais simples, vem de alguma coisa muito simples. Pessoas alfabetizadas leem ficção.


Ficção tem duas utilidades. Em primeiro lugar, é uma porta de entrada para o vício da leitura. O impulso para saber o que acontece a seguir, para querer virar a página, a necessidade para continuar, mesmo se for difícil, porque alguém está em apuros e você tem que saber como tudo isso vai terminar… este é um impulso muito real. E força você a aprender novas palavras, a pensar novos pensamentos, a continuar. Para descobrir que ler per se é prazeiroso. Uma vez que você aprender isso, você está na estrada para ler qualquer coisa. E ler é primoridal. Houveram barulhos feitos brevemente, uns poucos anos atrás, sobre a ideia que nós estamos vivendo emum mundo pós-literado, em que a habilidade de fazer sentido através de palavras escritas seria de alguma forma redundante, mas estes dias se foram: palavras são mais importantes do que elas jamais foram: nós navegamos no mundo com palavras, e como o mundo desliza para internet, nós precisamos seguí-lo, para comunicar e para compreender o que nós estamos lendo. Pessoas que não podem entender umas às outras não podem trocar ideias, não podem comunicar, e programas de tradução tem limites.


A forma mais simples para certificar-se que nós criaremos crianças alfabetizadas é ensiná-las a ler, e mostrar a elas que ler é uma atividade prazeirosa. E isso significa, na sua forma mais simples, encontrar livros que elas gostem, dando a elas acesso a estes livros, e deixando-as lê-los.


Eu não acho que existe tal coisa como um livro ruim para crianças. De vez em quando vira moda entre alguns adultos apontar um subtipo de livros infantis, um gênero, talvez, ou um autor, e declará-los livros ruins, livros que crianças devem ser impedidas de ler. Eu vi isso acontecer de novo e de novo; Enid Blyton foi declarado um autor ruim, assim como foi RL Stine, assim como foram dúzias de outros. Quadrinhos tem sido condenados como incentivando o analfabetismo.


É tolice. É pretensioso e é bobabem. Não existem autores ruins para crianças, que crianças gostam e querem ler e procuram, porque cada criança é diferente. Elas podem achar as histórias que elas precisam, e elas se colocam nas histórias. Uma ideia gasta ou banal não é gasta e banal para elas. Esta é a primeira vez que a criança a encontra. Não desencorage as crianças a ler porque você acha que eles estão lendo a coisa errada. Ficção que você não gosta é uma rota para outros livros que você pode preferir. E nem todo mundo tem o mesmo gosto que você.


Adultos bem intencionados podem facilmente destruir o amor pela leitura de uma criança: impedindo-os de ler o que eles gostam, ou dando a eles livros valiosos-mas-chatos que você gostaria, o equivalente no século 21 a forma vitoriana de “aprimorar” a literatura. Você terminar com uma geração convencida que ler é chato e pior, é desagradável.


Nós precisamos que nossas crianças entrem na escada da leitura: qualquer coisa  que eles gostem de ler os move para cima, degrau por degrau, dentro do alfabetismo. (Também, não faça o que este autor fez quando sua filha de 11 anos estava em RL Stine, que é arrumar um exemplar de Carrie de Stephen King, dizendo se você gostou destes você irá amar este! Holly não leu nada além de histórias seguras de colonos em pradarias pelo resto dos seus anos adolescentes, e ainda me dá um olhar penetrante quando o nome de Stephen King é mencionado.)


E a segunda coisa que ficção faz é construir empatia. Quando você assite TV ou vê um filme, você está olhando para coisas acontecendo para outras pessoas. Ficção em prosa é alguma coisa que você construiu a partir de 26 letras e um punhado de marcas de pontuação, e você, e você sozinho, usando a sua imaginação, criou um mundo e pessoas e olhou através de outros olhos. Você sente coisas, visita lugares e mundos que você nunca conheceria de outra forma. Você aprende que todo mundo lá fora é um eu também. Você se torna outra pessoa, e quando você retorna ao seu próprio mundo, você estará levemente mudado.


Empatia é um instrumento para construir pessoas em grupos, permite-nos funcionar como mais do que indivíduos auto-obsecados.


Você também está descobrindo uma coisa vitalmente importante para fazer o seu caminho no mundo conforme você lê. E é isto:


O mundo não tem que ser desta forma. As coisas podem ser diferentes.


Eu estava na China em 2007, na primeira convenção de fantasia e ficção científica aprovada pelo partido da história chinesa. E em um certo momento eu fui até o oficial comandante e perguntei a ele por quê? FC havia sido desaprovada por um longo tempo. O que tinha mudado?


É simples, ele me disse. Os chineses eram brilhantes em fazer coisas se outras pessoas dessem a eles os planos. Mas eles não inovavam e eles não inventavam. Eles não imaginavam. Então eles mandaram uma delegação aos EUA, para a Apple, para a Microsoft, para Google, eles perguntaram as pessoas ali que estavam inventando o futuro sobre elas mesmas. E eles descobriram que todos eles leram ficção científica quando eles eram meninos ou meninas.


Ficção pode mostrar a você um mundo diferente. Pode levar você a um lugar onde você nunca esteve. Uma vez que você tenha visitado outros mundos, como estes que comeram uma fruta das fadas, você nunca poderá ficar totalmente satisfeito com o mundo em que você cresceu. Descontentamento é uma coisa boa: pessoas descontentes podem modificar e aprimorar seus mundos, deixá-los melhor, deixá-los diferentes.


E enquanto nós estamos neste assunto, eu gostaria de dizer umas poucas palavras sobre escapismo. Eu ouço o termo cogitado como se fosse uma coisa ruim. Como se ficção “escapista” fosse um opióide barato usado  pelos confusos, os tolos e alienados, e a única ficção que tem valor, para adultos ou para crianças, é ficção mimética, espelhando o pior do mundo em que o leitor se encontra.


Se você estivesse aprisionado em uma situação impossível, em um lugar desagradável, com pessoas que te querem mal, e alguém oferecesse a você uma escapada temporária, por que você não a aceitaria? E ficção escapista é justamente isso: ficção que abre uma porta, mostra a luz do sol lá fora, dá a você um lugar para ir onde você está no controle, com pessoas com quem você quer estar (e livros são lugares reais, não se engane sobre isso); e mais importante, durante a sua escapada, livros podem também dar a você conhecimento sobre o mundo e seu predicamento, dá a você armas, dá a você armadura: coisas reais que você pode levar de volta para a sua prisão. Habilidades e conhecimentos e instrumentos que você pode usar para escapar de verdade.


Como JRR Tolkien nos lembrou, as únicas pessoas que se colocam contra um escape são os carcereiros.


Outra forma de destruir o amor pela leitura de uma criança, é ter certeza de que não existem livros de qualquer tipo ao redor. E dar a eles nenhum lugar para ler estes livros. Eu fui sortudo. Eu tinha uma excelente bibiloteca local onde eu cresci. Eu tinha o tipo de pais que podiam ser persuadidos a me deixar na biblioteca no seu caminho para o trabalho nas férias de verão, e o tipo de bibliotecários que não ligavam para um garoto pequeno e desacompanhado indo para a seção infantil toda a manhã e lidando com o catálogo de cartões, procurando por livros com fantasmas ou magia ou foguetes neles, procurando por vampiros ou detetives ou bruxas ou maravilhas. E quando eu terminei de ler a seção infantil eu comecei com os livros adultos.


Eles eram bons bibliotecários. Eles gostavam de livros e eles gostavam que os livros fossem lidos. Eles me ensinaram como encomendar livros de outras bibliotecas em empréstimos inter-bibliotecas. Eles não foram esnobes sobre qualquer coisa que eu lia. Eles apenas pareciam gostar deste garotinho de olhos arregalados que amava ler, e falavam comigo sobre os livros que eu estava lendo, eles encontravam outro livro em uma série, eles me ajudavam. Eles me tratavam como outro leitor - nada menos ou mais - o que significava que eles me tratavam com respeito. Eu não estava acostumado a ser tratado com respeito quando eu tinha oito anos.


Mas bibliotecas são sobre liberdade. Liberdade para ler, liberdade de ideias, liberdade de comunicação. Elas são sobre educação (que não é um processo que termina no dia que nós deixamos a escola ou a faculdade), sobre entretenimento, sobre fazer lugares seguros e sobre acesso a informação.


Eu me preocupo que no século 21 as pessoas confundam o que as bibliotecas são e qual o propósito delas. Se você percebe uma biblioteca como uma estante de livros, isso pode parecer antiquado ou desatualizado em um mundo em que a maioria, mas não todos, os livros impressos existem digitalmente. Mas isso é perder o ponto fundamental.


Eu acho que tem a ver com a natureza da informação. Informação tem valor, e a informação correta tem um valor enorme. Por toda a história da humanidade, nós vivemos em um tempo de escassez de informação, e ter a informação necessária sempre foi importante, e sempre valeu alguma coisa: quando plantar sementes, onde achar coisas, mapas e histórias - elas sempre foram boas para uma refeição e companhia. Informação era uma coisa valiosa, e estes que a tinham ou podiam obtê-la podiam cobrar por este serviço.


Nos últimos anos, nós nos movemos de uma economia de escassez de informação para uma impulsionada por uma abundância de informação. De acordo com Eric Schmidt da Google, atualmente a  cada dois dias a raça humana cria tanta informação quanto ela criou da aurora da civilização até 2003. Isso é cerca de cinco exobytes de dados por dia, para estes que estão contando. O desafio se torna, não encontrar aquela escassa planta crescendo no deserto, mas achar uma planta específica crescendo em uma selva. Nós precisaremos de ajuda para navegar naquela informação para achar a coisa que nós realmente precisamos.


Bibliotecas são lugares onde as pessoas vão pela informação. Livros são apenas a ponta do iceberg da informação: eles estão lá, e bibliotecas podem prover você gratuitamente e legalmente com livros. Mais crianças pegam livros emprestados de bibliotecas que nunca antes - livros de todos os tipos: em papel, digital e audio. Mas bibliotecas também são, por exemplo, lugares que pessoas, que podem não ter computadores, que podem não ter conexão com a internet podem ficar online sem pagar nada: imensamente importante quando o caminho para descobrir sobre empregos, se candidatar a empretos ou benefícios estão migrando crescentemente para exclusivamente online. Bibliotecários podem ajudar estas pessoas a navegar neste mundo.


Eu não acredito que todos os livros irão ou devem migrar para telas: como Douglas Adams uma vez me dizz, mais de 20 anos antes do Kindle aparecer, um livro físico é como um tubarão. Tubarões são antigos: existiam tubarões nos oceanos antes dos dinossauros. E a razão de ainda existirem tubarões por aí é que tubarões são os melhores em serem tubarões do que qualquer outra coisa. Livros físicos são resistentes, difíceis de destruir, resistentes a banho, operam com luz solar, caem bem na sua mão: eles são bons em serem livros, e sempre existirá um lugar para eles. Eles pertencem as bibliotecas, assim como bibliotecas já se tornaram lugares onde você pode ter acesso a ebooks, audiolivros, DVDs e conteúdo da internet.


Uma biblioteca é um lugar que é um depósito de informação e dá a cada cidadão igual acessoa a ela. Isso inclui informação de saúde. E informação de saúde mental. É um espaço de comunidade. É um lugar seguro, um santuário do mundo. É um lugar com bibliotecários nele. Como as bibliotecas do futuro serão é uma coisa que nós devíamos imaginar agora.


Alfabetismo é mais importante do que nunca foi, neste mundo de texto e email, um mundo de informação escrita. Nós precisamos ler e escrever, nós precisamos de cidadãos globais que podem ler confortavelmente, compreender o que eles estão lendo, entender nuances, e se fazer entendidos.


Bibliotecas são realmente portais para o futuro. Então é triste que, ao redor do mundo, nós observemos as autoridades locais aproveitando a oportunidade para fechar bilbiotecas como uma forma fácil de poupar dinheiro, sem perceber que eles estão roubando do futuro para pagar pelo hoje. Eles estão fechando portais que deveriam ser abertos.


Se acordo com um estudo recente da Organização para Desenvolvimento e Cooperação Econômica (Organisation for Economic Cooperation and Development), Inglaterra é o “único país onde o grupo de idade mais velho tem maior proficiência tanto em linguagem quanto com números que o grupo mais jovem, após outros fatores, tais como gênero, antecedentes sócio-econômicos e tipo de ocupações são levados em consideração”.


Ou para colocar de outra forma, nossos filhos e nossos netos são menos alfabetizados e numerados do que nós somos. Eles são menos aptos para navegar no mundo, para entende-lo para resolver problemas. Eles podem ser mais facilmente enganados e desencaminhados, serão menos aptos a mudar o mundo em que eles se encontram, serão menos empregáveis. Todas estas coisas. E como um país, Inglaterra irá cair atrás de outras nações desenvolvidas porque será carente de força de trabalho qualificada.


Livros são a forma que nós nos comunicamos com os mortos. A forma que nós aprendemos as lições destes que não estão mais entre nós, o que a humanidade construiu para si mesma, progrediu, fez o conhecimento crescente ao invés de alguma coisa que tinha de ser reaprendida, de novo e de novo. Existem histórias que são mais antigas do que a maioria dos países, histórias que sobreviveram as culturas e os edifícios nos quais elas foram contadas a primeira vez.


Eu acho que nós temos responsabilidades com o futuro. Responsabilidades e obrigações para com as crianças, para os adultos que estas crianças irão se tornar, para o mundo que eles irão se encontrar habitando. Todos nós - como leitores, como escritores, como cidadãos - temos obrigações. Eu acho que vou tentar e enumerar algumas destas obrigações aqui.


Eu acredito que nós temos uma obrigação de ler por prazer, em lugares públicos e privados. Se nós lermos por prazer, se outros nos verem lendo, então nós aprenderemos, nós exercitaremos nossas imaginações. Nós mostraremos aos outros que ler é uma coisa boa.


Nós temos uma obrigação de apoiar bibliotecas. De usar bibliotecas, de encorajar outros a usar bibliotecas, de protestar contra o fechamento de bibliotecas. Se você não valoriza bibliotecas então você não valoriza informação ou cultura ou sabedoria. Você está silenciando as vozes do passado e você está ferindo o futuro.


Nós temos uma obrigação de ler em voz alta para nossas crianças. De ler para elas coisas que elas irão gostar. De ler para elas histórias das quais nós já estamos cansados. De fazer vozes, de fazê-las interessante, não parar de ler para elas apenas porque elas aprenderam a ler sozinhas. Use o momento de ler em voz alta como um momento de ligação entre vocês, como um momento quando nenhum telefone está sendo checado, quando as distrações do mundo são colocadas de lado.


Nós temos uma obrigação de usar a linguagem. De nos estimular. De descobrir o que as palavras significam e como usá-las, de nos comunicarmos claramente, de dizer o que nós queremos dizer. Nós não devemos congelar a linguagem, ou fingir que é uma coisa morta que deve ser reverenciada, mas nós devemos usá-la como uma coisa viva, que flui, que pede emprestado palavras, que permite que significados e pronúncias mudem com o tempo.


Nós escritores - especialmente escritores para crianças, mas todos os escritores - temos uma obrigação com nossos leitores: a obrigação de escrever coisas verdadeiras, especialmente importante quando você está criando histórias de pessoas que não existem em lugares que nunca foram - para entender que a verdade não está no que aconcetece mas no que isso nos diz sobre quem nós somos. Ficção é a mentira que conta a verdade, afinal de contas. Nós temos uma obrigação de não chatear nossos leitores, mas de fazê-los virar as páginas. Uma das melhores curas do leitor relutante, afinal de contas, é uma história que eles não pode parar de ler. E enquanto nós devemos dizer aos nossos leitores coisas verdadeiras e dar a eles armas e armaduras e passar qualquer sabedoria que nós recolhemos de nossa curta passagem por este mundo verde, nós temos uma obrigação de não pregar, não dar uma palestra ou sermão, não forçar morais e mensagens predigeridas pelas gargantas de nossos leitores como pássaros adultos alimentando seus bebês com larvas pré-mastigadas; e nós temos uma obrigação de nunca, nunca, sob nenhuma circunstância, escrever qualquer coisa para crianças que nós mesmos não gostaríamos de ler.


Nós temos uma obrigação de entender e reconhecer que como escritores para crianças nós estamos fazendo um trabalho importante, porque se nós fizermos besteira e escrevemos livros chatos que afastam crianças da leitura e dos livros, nós teremos reduzidos nosso próprio futuro e diminuído o deles.


Nós todos - adultos e crianças, escritores e leitores - temos uma obrigação de sonhar acordados. Nós temos uma obrigação de de imaginar. É fácil fingir que ninguém pode mudar nada, que nóe estamos em um mundo em que a sociedade é enorme e os indivíduos são menos do que nada, um átomo em uma parede, um grão de arroz em uma plantação. Mas a verdade é indivíduos mudam o mundo de novo e de novo, indivíduos fazem o futuro, e eles fazem isso imaginando que as coisas podem ser diferentes.


Olhe ao seu redor. Literalmente, eu quero dizer. Pare por um momento e olhe ao redor na sala que você está. Eu vou apontar uma coisa tão óbvia que tende a ser esquecida. É isto: que tudo que você pode ver, incluindo as paredes, foi, em algum ponto, imaginado. Alguém decidiu que foi fácil sentar em uma cadeira do que no chão e imaginou a cadeira. Alguém tinha que imaginar uma forma que eu poderia falar com você em Londres nesse momento sem que nós todos pegássmos chuva.. Esta sala e as coisas nela, e todas as outras coisa neste prédio, nesta cidade, existem porque, de novo, e de novo, e de novo, pessoas imaginaram coisas.


Nós temos uma obrigação de fazer coisas bonitas. Não deixar o mundo mais feio do que nós o encontramos, não esvaziar os oceanos, não deixar nossos problemas para a próxima geração. Nós temos uma obrigação de limpar o que sujamos, e não deixar para as nossas crianças um mundo que nós quebramos e bagunçamos com a nossa miopia.


Nós temos uma obrigação de dizer aos nossos políticos o que nós queremos, de votar contra políticos de qualquer partido que não entendam o valor da leitura em criar cidadãos de valor, que não querem agir para preservar e proteger o conhecimento e encorajar a leitura. Isto não é uma questão de política de partido. É uma questão de humanidade.


Albert Einstein foi questionado uma vez como nós poderíamos tornar nossas crianças inteligentes. Sua resposta foi ao mesm otempo simples e sábia. “Se você quer que seus filhos sejam inteligentes,” ele disse, “leia contos de fadas para eles. Se você quer que eles sejam mais inteligentes, leia para eles mais contos de fadas.” Ele entendeu o valor da leitura, e da imaginação. Eu espero que nós possamos dar a nossas crianças um mundo em que eles irão ler e ser lidos, e imaginar, e entender.


• Esta é uma versão editada da palestra de Neil Gaiman para a Reading Agency, realizada na Segunda-feira, 14 de outubro no Barbican em Londres. A série de palestras anuais da Reading Agency foi iniciada em 2012 como uma plataforma para levar escritores e pensadores a compartilhar ideias originais e desafiadores sobre a leitura e bibliotecas.