segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Somos o Gato de Schrödinger



Um conceito da física quântica pouco conhecido pelo grande público, apesar de já ter sido explanado em séries de televisão como “The Big Bang Theory”, é o gato Schrödinger.
Schrödinger propôs uma situação hipotética ond um gato é trancado dentro de uma caixa onde há uma outra porta de onde será liberado, em uma hora desconhecida, um veneno mortal.
Como não sabemos quando este veneno será liberado,  não temos como saber se o gato está vivo ou morto. Então, até que se abra a caixa o gato está ao mesmo tempoi vivo E morto.
De uma certa forma, nós, enquanto Humanidade, nos encontramos  em um momento de similar incerteza.
A virada do século XX para o XXI viu a queda do socialismo, com o fim da União Soviética e a reestruturação política em países como China e Cuba. Também estamos nos dando conta da decadência do capitalismo, e de seus efeitos nocivos a uma grande parcela da sociedade.
Regimes totalitários reuíram, e os que se estabeleceram ou permaneceram são criticados e combatidos. Por outro lado, as democracias revelaram não ser tão democráticas assim, com governos espiando seus cidadão e ditos países aliados, além da corrupção em escala mundial demonstrando que “alguns são mais iguais do que os outros.”
Vimos verdades e modelos naturalizados por décadas ou séculos ruírem e abrirem espaço para possibilidades de ser e estar no mundo antes desconhecidas ou ignoradas. Ao mesmo tempo vemos reacionários que neuroticamente tentam manter a integridade de paradigmas já estilhaçados.
Em meio a este tempo de incertezas, enquanto a Humanidade somos ao mesmo tempo socialistas e capitalistas, totalitários e democráticos, reacionários e libertários, somos todas as possibilidades e nenhuma, e ainda assim temos um momento único em nosa história como espécie de criar algo novo, sem a menor garantia de ser o caminho certo ou o errado.
Somos o gato de Schrödinger, ora arranhando uma porta, ora arranhando a outra, sem conseguir distinguir qual nos dará o veneno e qual a liberdade.
E sem saber qual delas irá se abrir primeiro.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Crônica - Super-Homem




Está história aconteceu no fim do século passado (e é engraçado pensar que isso já significa que faz mais de 14 anos), quando eu fazia os primeiros períodos da faculdade de filosofia na UERJ. Durante a aula de lógica clássica, a professora explicava que ninguém é dono da verdade em resposta a um comentário idiota de um colega de turma, e para reforçar o argumento ela disse:


“Não adianta tentar ser o super-homem.”


Ao que um cara do meu lado (o mesmo do comentário idiota acima) comentou, enchendo a boca: “A senhora está falando do super-homem de Nietzche?”


“Não! Estou falando do super-homem, super-homem.”


Nessa hora eu intervim: “Ela está falando do super-homem de Joe Shuster e Jerry Siegel.”


Momento de silêncio. Todos se voltam para mim. A professora me pergunta: “Ahn?”


“Joe Shuster e Jerry Siegel. Sabe, os criadores do super-homem. Aquele com S no peito e capa vermelha.”


“Isso! É desse aí que eu estava falando.” e continuou a dar sua aula.


Como é bom ser nerd. :)

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Entre o Conto e o Romance

Para começar, é importante deixar claro que o romance do título não se refere ao gênero literário focado no amor romântico, mas em um formato de texto onde uma história é contida em um único livro com pelo menos oitenta mil palavras.

Isso esclarecido, podemos nos debruçar sobre o tema devidademnte.

É comum entre escritores iniciantes escutar colocações de que o conto é mais fácil de escrever do que um romance inteiro, isso seria devido as diferenças de tamanho dos dois formatos, logo o conto, por ser mais curto, seria mais fácil.

Por outro lado, escritores que já possuem romances publicados algumas vezes relatam da dificuldade de escrever contos. Já vi este tipo de comentário de autores como Eric Novello e Licya Barros. O próprio Machado de Assis dizia odiar o formato do conto, por obrigá-lo a conter uma história em um espaço tão limitado (e ele escreveu mais de 300, imagina se gostasse).

As diferenças entre eles não tem nada a ver com sua dificuldade ou complexidade. Metaforicamente, está mais para a diferença entre uma corrida de 100, 200 ou 400 metros e uma maratona. Cada uma exige um conjunto de habilidades específicas diferentes para ser realizada.

As corridas curtas de 100 ou 200 metros, de forma similar ao conto, exigem do atleta/escritor a capacidade de explosão, de colocar as palavras para fora o mais rápido possível. As cenas passam em sucessão ligeira diante de seus olhos, crescendo em direção ao explosivo clímax da reviravolta final. Assim como o atleta, o contista termina sua prova ofegante, cansado pela energia que transpassou o seu ser.

Se um atleta tentar correr uma maratona deste mesmo jeito, não chegará nem a um décimo do trajeto. Da mesma forma, se um escritor tentar escrever um romance como faria com um conto ele não aguentará chegar até o final. Cansaço e desgaste irão sobrepujá-lo e terminará caído na pista frustado e sem forças.

Em uma maratona, assim como na escrita de um romance, o que importa não é a explosão, mas o ritmo. Um maratonista pode não ser o atleta mais rápido do atletismo, ele não precisa ser. O mais importante para ele é saber medir a energia que ele coloca em seu passo, mantendo um ritmo que o permitirá atravessar a linha de chegada.

Um escritor que pretenda construir um romance fará bem em aprender estas lições do maratonista. Manter o ritmo de sua escrita, controlando sua energia  sem ceder ao impulso de acelerar demais com o intuito de terminar logo. A maratona do romance é mais uma prova de resistência do que de velocidade.

Nossa vantagem sobre os colegas do atletismo é que podemos voltar e refazer um trecho de nossa corrida no processo de revisão. Por isso mesmo devemos encarar este processo com calma, sem afobações.

A jornada é dura, eu sei. Ainda não terminei uma maratona, mas sigo em frente, um passo de cada vez, uma palavra por vez, até a linha de chegada.

domingo, 23 de novembro de 2014

Resgate da Loucura

A loucura sempre nos assustou. Mesmo entre os profissionais de saúde, nenhuma área é mais temida e evitada do que a de saúde mental.

Esse mendo provém do fato da loucura do outro reverberar em nossa própria loucura. Aquela que escondemos no ponto mais profundo de nossas almas com temor de que algum dia venha a tona como um vulcão a muito adormecido.

Mas se a loucura tem este caráter marginal, como algo a ser temido e evitado, também possui a qualidade de uma liberdade irrestrita. O louco é aquele que não se enquadra nas leis e nas regras da sociedade. Talvez exatamente por isso seja temido e evitado e, da mesma forma, é por isso que tenta-se enquadra-lo e conte-lo em alguma psicopatologia.

Etimologicamente, a palavra psicopatologia pode ser partida em suas raízes gregas para encontrar psiquê-pathôs-lógos ou, em uma tradução livre:  o discurso das emoções da alma. Por algum motivo, um grego qualquer decidiu que isso representava algo ruim e doentio e por séculos nós compramos esta ideia.

E se resignificarmos este pensamento? Se neste mundo repleto de regras e normatizações recuperarmos o discurso das emoções da alma de cada um? Se resgatarmos a nossa loucura?

Na verdade, acho que este resgate é uma necessidade urgente. Pois o silêncio de tantas almas caladas é ensurdecedor.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Degustação de "Um Menino e as Letras", parte de Caminhos Caóticos

"A única coisa que ao menino aquietava, era quando sua irmã, com uma revistinha em punho, no seu colo o colocava.
Naquele lugar, o menino para o mundo da fantasia partia. Com Mônica, Cascão, Magali e Cebolinha aventuras ele vivia.
O menino as letras ainda não conhecia, por isso apontava O menino as palavras ainda não conhecia, por isso apontava cada uma e a irmã respondia. De resposta em resposta, a ler ele aprendia.
Foi assim que o menino aprendeu a ler antes mesmo de na escola entrar."
- Um Menino e as Letras, parte de Caminhos Caóticos.

Mais um trecho do meu livro, dessa vez apresentando minha "fábula autobiográfica".
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quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Degustação de O Corte Perfeito, parte de Caminhos Caóticos

"Ele levantou o corpo, apoiando-se sobre seus calcanhares, e retirou a tábua do assoalho que sua testa tocara momentos antes. Embaixo dela, encontrou um embrulho em um tecido de seda violeta com pequenos desenhos brancos no formato de flores. Retornou a tábua solta ao seu lugar, e sobre ela colocou o embrulho, abrindo-o de forma lenta e solene. Colocou a espada embainhada ali guardada na faixa de sua cintura, e dobrando o tecido, guardou-o dentro de seu kimono, do lado esquerdo.
Quando se levantou, ele não era mais o monge Hoshi, ele voltara a ser Katsuro."

O Corte Perfeito é uma história de monges e samurais no Japão Feudal e a diferença entre a busca pela excelência e a busca pela perfeição.

Para ler a história completa, basta adquirir o livro aqui: https://www.amazon.com.br/dp/B00NHMZCJM

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Caminhos Caóticos

Caminhos Caóticos

Os caminhos da vida não são retos
Eles se curvam, se dobram,
se elevam, se espiralizam.

Algumas vezes,
seguem por rumos
nunca imaginados.

Quando nos sentimos perdidos
Pode ser ali
que vamos nos encontrar.

Os caminhos se contorcem,
serpenteiam.
Parecem se mover sob os nossos pés.

E quando menos esperamos
Chegamos onde deveríamos estar.

Onze caminhos, onze mundos, onze histórias.
Você está pronto para seguir por estes caminhos caóticos?
Siga com cuidado, nunca se sabe o que uma curva no caminho pode te tornar.

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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Acerca da Depressão

"Eu me senti esquisito. Como se eu nunca mais fosse sentir alegria na minha vida."
- J.K. Rowling, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban.

A descrição acima fala do ataque das criaturas fantásticas conhecidas como dementadores, mas se aplica perfeitamente a descrição de uma pessoa acometida de depressão. Não por acaso, Rowling declarou ter se embasado em sua própria experiência com uma depressão que tivera anos atra´s para criar estas criaturas.

Mas o que é a depressão?

Não vou aqui fazer uma descrição das alterações bioquímicas relacionadas a esta condição. como psicólogo e gestalt-terapeuta me interessa muito mais a forma como a depressão é experienciada por aqueles acometido por ela.

A depressão ocorre quando sentimentos ficam guardados "dentro" de nós sem que se lide com eles. Isto acontece principalmente com aqueles sentimentos que consideramos ruins ou negativos, tais como: tristeza, medo, pesar, luto, melancolia, raiva, ódio, etc.

As pessoas que se negam a entrar em contato com estas emoções tentam reprimi-las com atividades que podem se tornar compulsivas, o uso de drogas (lícitas ou ilícitas), alimentação compulsiva, vícios em adrenalina, sexo, jogo, ou até trabalho.

Tudo realizado como uma forma de fuga de nós mesmos em consonância com a ideia neurótica de que podemos escolher como nos sentimos.

Mas não podemos.

A única coisa que não podemos escolher em nossas vidas é exatamente como nos sentimos em relação às situações e acontecimentos que vivemos.

Os sentimentos reprimidos continuam conosco, e da mesma forma que uma carne esquecida na geladeira, apodrecem em nosso íntimo e como um câncer esta podridão se espalha, devorando cada sentimento e pensamento que temos até que tudo o que resta é um sentimento de vazio e desespero, podendo levar a doenças psicossomáticas, em casos extremos, quando este sofrimento se torna absolutamente insuportável, a fuga final representada pelo suicídio.

A família e os amigos quando não acham que é "frescura", tentam ajudar com palavras de incentivo dizendo coisas que temos de fazer, que não podemos ficar desse jeito (como se precisássemos de autorização para sentir algo), o que acaba piorando ainda mais o estado da pessoa deprimida.

Não que os amigos e familiares façam isso por mal. Na verdade eles o fazem com a melhor das intenções. No raciocínio deles, tirar a cabeça dos problemas, ou seja, reprimir ainda mais os sentimentos negativos, é a solução.

As medicações para depressão podem ajudar, mas apenas quando enfim encaramos e nos apropriamos das emoções que encarceramos ao longo dos anos é que começamos a verdadeira jornada em direção a saúde.

"Você então está dizendo que para me livrar da depressão eu preciso ficar triste?"

Por mais paradoxal que isso possa parecer, é exatamente isso.

Quando nos apropriamos destes sentimentos reprimidos, os vivenciamos e fazemos alguma coisa com eles, deixamos escoar a energia que os compõem e eles se vão.

A proposta do processo psicoterapêutico, ao menos sob uma abordagem da gestalt-terapia, é a de que o paciente possa vivenciar estas emoções em um ambiente seguro e acolhedor, para a partir daí nos abrimos a outras possibilidades de sentir e viver no mundo.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Experiência Não "Curtir" - 10 dias

Cerca de 10 dias sem curtir nada no facebook e pessoas que não estavam mais aparecendo na minha TL voltaram a aparecer. Um problema, entretanto, é que a minha TL está bem mais cheia agora, o que faz com que eu, algumas vezes, escolha passar por cima de algumas postagens sem dar maior importância.

O que mais chamou a minha atenção nesta experiência é a mudança na forma como me relaciono com as pessoas aqui. Eu me dei conta de quão automático é "curtir" alguma coisa e quanta atenção e esforço é necessário para fazer um comentário, pelo menos um que não seja simplesmente "curti" ou algo similar.

Fica o convite a todos fazerem a experiência também.

domingo, 31 de agosto de 2014

O Escritor Olha para o Nada

            Alguém perguntou ao escritor:

            - O que você está fazendo?

            - Escrevendo.

             - Mas você só está parado olhando para o nada a um tempão.

             - É porque primeiro escrevo em minha alma, para depois escrever no papel.

domingo, 10 de agosto de 2014

A Fonte das Histórias



Muitos anos atrás, li uma história do Isaac Asimov que contava de um pesquisador que tentava descobrir de onde vinham as piadas. Segundo ele todas as piadas tinham praticamente o mesmo conteúdo e formato, mudando apenas os elementos para se adaptarem à época, lugar e cultura.

No final do conto, o pesquisador junto ao grupo que estava com ele chega a conclusão de que as piadas teriam sido criadas por uma raça alienígena muito mais inteligente que os seres humanos como parte de um experimento de interação social e caso isso fosse descoberto, o experimento seria terminado imediatamente.

A partir do momento desta descoberta, nenhum dos membros do grupo de pesquisa conseguiu mais se lembrar de nenhuma piada, como se todas tivessem sido retiradas de suas mentes e eles tinham certeza de que isso tinha acontecido em todo o mundo.

Acho que comigo é parecido. No dia em que eu entender de onde vem as ideias das minhas histórias, elas sumirão.

Por isso, apenas deixo que venham até mim e tento atendê-las da melhor forma que eu posso.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

As Superstições dos Outros

Pular sete ondas, comer lentilha, oferendas a Iemanjá, rezar o terço, orações de graças na ceia de ano-novo, usar roupas novas ou de uma determinada cor, essas são algumas das práticas realizadas no reveillon visando tornar este ano um ano melhor.

O que todas estas ações tem em comum? Todas são motivadas pela fé de seus praticantes no poder destas para transformar o mundo, atrair sorte ou ficar na graças a figuras sagradas. Só que algumas são chamadas de crenças e outras de superstições.

Mas o que faz alguma coisa ser considerada como crença e outra como superstição?

O termo superstição é geralmente usado de forma pejorativa, como algo de pessoas tolas, irracionais, até porque uma "superstição" é a compreensão de uma relação entre uma causa e um efeito sem necessariamente uma base racional, ou seja, com base em uma crença.

Mas peraí! Se a superstição é uma crença qual a diferença, afinal?

Se prestarmos atenção na forma como as pessoas falam estas palavras teremos uma pista: A maioria das pessoas (temos exceções) usa o termo crença para designar aquilo que elas próprias acreditam. "A minha crença é o que eu acredito.", por exemplo. E a superstição? Normalmente usamos esta palavra para falar do que os outros acreditam, como se a crença do outro fosse algo menor.

No final das contas, tudo é crença, só muda o que cada um acredita. Seja "superstição" ou não. Talvez ao compreendermos isso se torne mais fácil respeitar.