quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Entre o Conto e o Romance

Para começar, é importante deixar claro que o romance do título não se refere ao gênero literário focado no amor romântico, mas em um formato de texto onde uma história é contida em um único livro com pelo menos oitenta mil palavras.

Isso esclarecido, podemos nos debruçar sobre o tema devidademnte.

É comum entre escritores iniciantes escutar colocações de que o conto é mais fácil de escrever do que um romance inteiro, isso seria devido as diferenças de tamanho dos dois formatos, logo o conto, por ser mais curto, seria mais fácil.

Por outro lado, escritores que já possuem romances publicados algumas vezes relatam da dificuldade de escrever contos. Já vi este tipo de comentário de autores como Eric Novello e Licya Barros. O próprio Machado de Assis dizia odiar o formato do conto, por obrigá-lo a conter uma história em um espaço tão limitado (e ele escreveu mais de 300, imagina se gostasse).

As diferenças entre eles não tem nada a ver com sua dificuldade ou complexidade. Metaforicamente, está mais para a diferença entre uma corrida de 100, 200 ou 400 metros e uma maratona. Cada uma exige um conjunto de habilidades específicas diferentes para ser realizada.

As corridas curtas de 100 ou 200 metros, de forma similar ao conto, exigem do atleta/escritor a capacidade de explosão, de colocar as palavras para fora o mais rápido possível. As cenas passam em sucessão ligeira diante de seus olhos, crescendo em direção ao explosivo clímax da reviravolta final. Assim como o atleta, o contista termina sua prova ofegante, cansado pela energia que transpassou o seu ser.

Se um atleta tentar correr uma maratona deste mesmo jeito, não chegará nem a um décimo do trajeto. Da mesma forma, se um escritor tentar escrever um romance como faria com um conto ele não aguentará chegar até o final. Cansaço e desgaste irão sobrepujá-lo e terminará caído na pista frustado e sem forças.

Em uma maratona, assim como na escrita de um romance, o que importa não é a explosão, mas o ritmo. Um maratonista pode não ser o atleta mais rápido do atletismo, ele não precisa ser. O mais importante para ele é saber medir a energia que ele coloca em seu passo, mantendo um ritmo que o permitirá atravessar a linha de chegada.

Um escritor que pretenda construir um romance fará bem em aprender estas lições do maratonista. Manter o ritmo de sua escrita, controlando sua energia  sem ceder ao impulso de acelerar demais com o intuito de terminar logo. A maratona do romance é mais uma prova de resistência do que de velocidade.

Nossa vantagem sobre os colegas do atletismo é que podemos voltar e refazer um trecho de nossa corrida no processo de revisão. Por isso mesmo devemos encarar este processo com calma, sem afobações.

A jornada é dura, eu sei. Ainda não terminei uma maratona, mas sigo em frente, um passo de cada vez, uma palavra por vez, até a linha de chegada.

domingo, 23 de novembro de 2014

Resgate da Loucura

A loucura sempre nos assustou. Mesmo entre os profissionais de saúde, nenhuma área é mais temida e evitada do que a de saúde mental.

Esse mendo provém do fato da loucura do outro reverberar em nossa própria loucura. Aquela que escondemos no ponto mais profundo de nossas almas com temor de que algum dia venha a tona como um vulcão a muito adormecido.

Mas se a loucura tem este caráter marginal, como algo a ser temido e evitado, também possui a qualidade de uma liberdade irrestrita. O louco é aquele que não se enquadra nas leis e nas regras da sociedade. Talvez exatamente por isso seja temido e evitado e, da mesma forma, é por isso que tenta-se enquadra-lo e conte-lo em alguma psicopatologia.

Etimologicamente, a palavra psicopatologia pode ser partida em suas raízes gregas para encontrar psiquê-pathôs-lógos ou, em uma tradução livre:  o discurso das emoções da alma. Por algum motivo, um grego qualquer decidiu que isso representava algo ruim e doentio e por séculos nós compramos esta ideia.

E se resignificarmos este pensamento? Se neste mundo repleto de regras e normatizações recuperarmos o discurso das emoções da alma de cada um? Se resgatarmos a nossa loucura?

Na verdade, acho que este resgate é uma necessidade urgente. Pois o silêncio de tantas almas caladas é ensurdecedor.