sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

O Valor da Bondade


Então é Natal…

E eu aposto que você continuou a música mentalmente, não foi?

Algumas coisas se conectam em nossa mente sem que tenhamos qualquer controle.

Outra coisa com que associamos o natal é a bondade. Na TV e na internet começam a fervilhar histórias de ações humanitárias, doações generosas a quem não tem nada ou quase nada, tradições de caridade, causos de empatia e reencontro.

Associamos esta época com este tipo de gesto e prezamos a bondade com todo o valor que achamos que merece.

Mas você sabe qual o valor da bondade?

Nenhum!

O mesmo valor de um monte pedras brilhantes, melhor dizendo. E como estas, valorizamos a bondade não por seu valor intrínseco, mas pela sua raridade.

Cada dia é mais difícil ver atos de bondade, muito pelo contrário.

Cada dia nos falta mais tempo e disposição para sermos bondosos.

E é por isso que atos de gentileza, generosidade, compaixão e empatia são tão valorizados. Mas só no natal! Amanhã voltaremos a nossa programação normal.

Quem dera chegar o dia em que a bondade tenha tanto valor quanto o sol de cada dia, a chuva ou a luz da lua. Algo tão comum que muitas vezes nós nem percebemos que está lá. E mesmo assim tem o seu valor.


domingo, 11 de setembro de 2016

Mini-Conto - Souvenir

Souvenir

Bom dia querido,
Não precisa me procurar. Quando estiver lendo isso eu já terei a muito partido. A noite passada foi maravilhosa, mas quero guardá-la como uma deliciosa lembrança e nada mais.
Sei que está confuso. É o efeito dos remédios. Por isso peço que leia esta carta até o fim, é muito importante.
Noite passada, na boate, eu vi como você me olhava. Disfarçava , conversando com seu amigo, mas seus olhos revelavam o seu desejo. Você me cercava como um predador a uma presa indefesa. Ou assim você acreditava.
Sua forma de dançar colando seu corpo ao meu já me excitava e logo nossos lábios travaram um duelo lascivo que nos guiou a este quarto de motel.
Você foi um amante vigoroso e quase me fez sucumbir na terceira vez que me pegou por trás como um animal.
Você dormiu tão tranquilamente depois disso, tão inerme…
Tomei a liberdade de tomar para um mim um souvenir para nunca mais esquecer de você. Não se preocupe, cuidarei bem dele. Irei embalsamá-lo e guardá-lo junto aos outros da minha coleção.
Deixei o celular ao seu lado já com o número da emergência digitado, basta clicar no “send”. Há mais um saco de gelo no isopor ao lado da cama, caso precise. Ligue para eles assim que terminar de ler essa carta e aguarde eles chegarem sem se mover.
Odiaria que você morresse após me proporcionar tanto prazer.
Com carinho,
V❤




domingo, 31 de julho de 2016

Nosso Lugar




Esse texto foi inspirado por um post em um grupo que faço parte no Facebook.


O autor do post que me inspirou afirmava que somos determinados socialmente e que nos construímos através da sociedade em que nascemos e a partir das relações sociais que construímos.


Acredito que nascemos com uma série de predisposições, sejam ela fruto de uma alma, da genética ou de uma história socio-cultural que nos antecede, e a partir de nossas relações e de nossas escolhas frente a tudo isso, vamos “nos encontrando”. Algo como quando ouvimos uma música ou lemos um texto e dizemos que aquilo foi feito para nós, ou que representa algo que sempre pensamos ou sentimos, mas nunca conseguimos colocar daquela forma, com aquelas palavras.


E então é como se um grande “click” acontecesse e encontrássemos nosso lugar no Universo.


Nesse momento, de alguma forma, respondemos aquela pergunta primordial humana: “Quem sou eu?”


Mas será assim tão fácil?


É claro que não.


Porque o Universo está em constante movimento e, da mesma forma, também está o nosso lugar nele.


Então é uma busca que nunca termina, talvez nem na morte. Mantemos algumas certezas e continuamos, muitas vezes sem saber, na procura da resposta.


E a cada vez que a encontramos, é o momento de começar a buscá-la novamente.

domingo, 24 de julho de 2016

Os Outros

O ser humano é uma raça gregária. Sentimos, enquanto espécie, uma necessidade de nos relacionarmos, de compartilharmos experiências, expectativas e histórias.

Contraditoriamente, algumas vezes precisamos da solidão, para nos reconectarmos conosco e para processar o contato que vivemos com os outros. Há um limite para isso, entretanto, e a solidão excessiva pode ser massacrante. Não a toa é uma das formas de punição mais antiga e dolorosa da história da humanidade é justamente a solitária.

Precisamos da relação com o outro. Ele alimenta nossas almas como a comida e a bebida o fazem aos nossos corpos.

Algumas vezes, e curiosamente isso tem se tornado cada vez mais forte nesses tempos de comunicações instantâneas e redes sociais, buscamos a relação com um outro que seja como nós. Que tenha os mesmos gostos, as mesmas ideias, a mesma visão de mundo (e dos outros outros), até os mesmos defeitos. Fazemos isso em busca de uma validação de quem somos, ou de quem acreditamos ser. Não há nada de errado nisso.

O problema é quando restringimos nossas relações à outros que são o mesmo. E nos fechamos em nossas comunidades, grupos, congregações, excluindo  tudo e todos que podem ameaçar-nos. Vivendo relações que são apenas vivências narcísicas entre reflexos de espelhos infinitos.

Por que o outro, não o outro mesmo, mas o outro outro, nos ameaça tanto?

É porque este outro, o que difere de nós, reverbera no outro que existe em nós. Mostrando-nos que poderíamos ser diferente do que somos, ou do que pensamos que somos. E, nessas relação, vemos que poderíamos ser outros.

E são esses outros a quem realmente tememos.